20 de junho de 2016

De onde me aguardo

Imagem: Charles Birnbaum _ Ceramic.


De onde me aguardo
uma calma de leopardo
lambe a parte contrária da tarde.

A praia extensa protege um amplo
florido de águas.
E eu garimpo conchas.
Às vezes faço um colar
sem lembranças.

Olhos de Rebentação



Vinha assim não se sabia
naquela estação.

O verde a descer entre os desertos
varando mil olhos de rebentação.

O primeiro sol depois do caos
abriga
a antiga plantação de existir
fora de época.

Os séculos em cachos
machucados de lugar,

refugam
para quem não sofreu
de safras.

Só o indecifrável dos dias nos remete.

Exercício para a Serena Sede dos Cavalos


Ontem eu vi três cavalos no diferente das horas. Um de manhã, em meio à neblina, sonolento por causa do frio noturno ainda em suas costas. As costelas à mostra, sem adestramento para a violência das usuras humanas. O segundo, com as patas de lonjura, tão magro, mas tão magro que seu cansaço só se movia pelo chicote da tontura. O terceiro, foi na lápide da tarde... as patas no exposto das feridas, sem ferraduras, a brancura gasta no pelo, cansada, mas repleta de um casco de esperança incomunicável com Deus. Tudo tão nunca de acabar. Aquelas coisas pesáveis pareciam sem destino, carregáveis para sempre. E aquele cavalo sabia chorar mas não dizia. Ele pensava de que lado das horas viria a água. O alimento. O descansar, ainda que manco. Tudo tão nunca de acabar. Alguns ossos saltados. Para dentro. Para fora. Obedecidos. Os olhos parcialmente vendados, de modo a só olharem para frente. Às vezes conseguem perceber algum vulto ao redor. De gente, de bicho, de automóveis que assustam. Seguem na falta de espera e de fé e de escolha...e de escolta dos deuses!!! Dos meses. Não há trégua para esses cavalos. Nem intervalos válidos. Cavalos não brincam. Trabalham até sonhar. Com o correr solto. Cavalos têm serena sede. A parede móvel dos orvalhos reconvoca-os todas as manhãs para a tortura. E quando vem a noite... Também quem se importa com os cavalos? Alguns são até esquecidos, deixados nas carroças, já prontos para o dia seguinte. Seguinte...

A metade do silêncio



Seja esta noite
a extensão de todas as procuras.

A cláusula menos escura
do que casula nos olhos
a lua.

Que areje a luz
enquanto Deus recapitula a tarde
e seu incenso de neblina.

Esteja esta luz na metade
do silêncio,

à curva do que germina.

Mínimos Oratórios d´Água para Guardar Hojes




17 - das curvaturas líquidas - 




Não, não é fácil converter a dor

nas curvaturas líquidas do que margeia.
Se havemos de dobrar também
os joelhos da incerteza
sobre a nossa própria areia.

Nessas quebras de sigilo
dos apelos,
do gelo pleno de flagelos
e 'anjos tortos' de outono.

Não é só de tristeza
o roer da palavra revezada
no fundo súbito do hábito.
Itinerante de fraqueza.

É também de lago e enredo.

A rima presa entre os dentes
logo cedo,
diante do que pressente.

É de se romper
ao menos um instante inteiro
da bagagem interior,
e seu granizo...
até chegar ao sorriso estrangeiro
de si mesmo.
Às certezas desossadas na viagem.

Para crer de novo na beleza
das azaleias... quando for hora da ancoragem.

Crer no zelo dos milagres
próprios da noite,
quando os poemas saem para rezar
na correnteza em flor.

E amanhecem
!

Um pouco do prosa...



Esquento a água para o café que não tomarei porque estou atrasada de tudo que precisarei. Tenho que salvar os peixes das emboscadas. Toneladas de tainhas. Tenho que avisá-las por dentro, dos perigos da estação. Mas não chegarei a tempo. Da moça que chora no ponto de ônibus sem dizer a razão. Não chegarei a tempo de mim mesma porque rasguei as horas num momento de exaustão. Os parâmetros são outros agora mas não há agora. São perímetros pisados de intuição. Um nada se dispersa aqui. Não há duração e as coisas não param e nem continuam. Estou fora do tempo mas não é de certeza, pois a memória ilustra formas de ser. Ouço os latidos de ontem do meu cão mas ele não está. O mar está do outro lado de uma sensação inalcançável. Ouço as batidas do meu coração. E a visão é a mesma que se vê de dentro de um avião. Só que de dia. O mar está no ar. Aéreo o chão. Nada mais é chão. A casa, o fogão se infinitam na luz. Respiro frações de tempo só as que escapam. Tudo está ficando longe do que é. Os peixes. As pessoas. meu cão. A água para o café. Meu corpo, minhas mãos se estendem ao nada...e me chamam e me acenam em despedida ou chegada.

Mínimos Oratórios d´Água para Guardar Hojes





XV - dos temporais - 


É vento líquido e tem patas...
Movediças.
Compacta os ossos das cidades,
arranca as vértebras das árvores:
desplanta seus dorsos,
alguns pela metade.

(Excerto incompleto na dobra
da tempestade.)

Enxerto versos nas juntas das mãos
para os que oram comigo
no minuto escorrido dos socorros,
quando se morre no ventre
de um carro,

e a terra, súbita,
se contorce em seu transtorno,
sob as ferragens da chuva.

O coração colapsa
até a raiz.

Não vida mais.

Só o que vibra,
no lado de fora do vidro,
- moído -
é o que o céu delibera
no granizo final:
a voz dos estrondos
- nada outonal -
a estender seus raios
no meio dos medos
humanos de maio.

A luz preparatória


Sabia ser de manhã por causa da luz preparatória. No oratório do instante concentrava-se de instinto com maior relevância...para alcançar de prioridade o fundo das vivências logo acima. Debaixo para cima. Repuxava o ar de um lado a outro, de dentro a dentro, em marcha, em máxima asfixia. Tranquila. Inquilina, às pressas, da alegria. Sempre nascia de alto mar. Em pulmonar coreografia. E subia para saudar...para soldar os toldos dos encantos. Todo santo dia.

Antes do Antes

.

Não era mais noite nem dia... no que queria. Nem sono nem vigília. Muito menos sonho. Era a antissenha das não-horas que jamais fariam falta para o nada. Era o informulável de si mesmo, numa esfera localizada no depois de todas as vozes. Tinha vazios de conforto num porto sem lugar que não fosse a estranheza, longe da estupidez estonteantemente humana. Distante dos rejeitos das auras barulhentas. Era de se desembrulhar as ondas. Sob os desmandos do vento. Antes do antes