20 de junho de 2016

Um pouco do prosa...



Esquento a água para o café que não tomarei porque estou atrasada de tudo que precisarei. Tenho que salvar os peixes das emboscadas. Toneladas de tainhas. Tenho que avisá-las por dentro, dos perigos da estação. Mas não chegarei a tempo. Da moça que chora no ponto de ônibus sem dizer a razão. Não chegarei a tempo de mim mesma porque rasguei as horas num momento de exaustão. Os parâmetros são outros agora mas não há agora. São perímetros pisados de intuição. Um nada se dispersa aqui. Não há duração e as coisas não param e nem continuam. Estou fora do tempo mas não é de certeza, pois a memória ilustra formas de ser. Ouço os latidos de ontem do meu cão mas ele não está. O mar está do outro lado de uma sensação inalcançável. Ouço as batidas do meu coração. E a visão é a mesma que se vê de dentro de um avião. Só que de dia. O mar está no ar. Aéreo o chão. Nada mais é chão. A casa, o fogão se infinitam na luz. Respiro frações de tempo só as que escapam. Tudo está ficando longe do que é. Os peixes. As pessoas. meu cão. A água para o café. Meu corpo, minhas mãos se estendem ao nada...e me chamam e me acenam em despedida ou chegada.

2 comentários:

  1. Você escreve para se gostar de ler. Gostei muito do que li.

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  2. Muito obrigada, Monica!!!
    É uma alegria imensa ter sua leitura e seu comentário! Ele enriquece o ânimo e afaga o trajeto. Um beijo!

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