26 de abril de 2016

Tesouros de Procurar

"Gudi" - Tintas mistas sobre tela - Rafa Barrozo

Antes fosse. Só o medo a consentir a entrega dessas pedras preciosas da infância e seus tesouros brincados de procurar. Nunca os achamos. Mas tínhamos fotografias das manhãs de sábado no meio dos gados. Felizes! Bolas de gude mais valiosas as azuis que pareciam planetas e as brancas com anel esverdeado. Não é de se pensar que em estado de paciência, os verbos profiram quartzos, rubis, safiras de descrença,  centenas de sentenças poéticas e pontes. Algumas já de safenas.  Não é de se pensar não. Que estou no canto menos terreno do quarto agora e socorro-me de selva para escrever coisas mais amenas, como um passeio imaginário pelas savanas e por tantas semanas quantas forem necessárias, a fim de acreditar que todo pranto será removido para muito além de um lado a outro da parede em riste. Esse ponto triste se move no excesso dos olhos.  Atravesso-o. Faço um transplante de sonhos. De ossos. Transparente é o acesso,  vidro moído rente à cara e umas flores num copo logo à frente. Tenho palavras dormentes, presas nessa pressa, nessas correntes de ar,  no lado de fora do acaso. O sono se repete e me leva ao pomar suprimido de meu pai. Os figos eram guardados para mim. Os figos!  E as fugas e os anjos. E as laranjas. Limas... depois de serem miniaturas de flor em lume. É meu costume vir aqui. Podar as pedras, as perdas... imaginar o antigo vermelho dos caquis. Mas não é de se pensar nos adubos da devolução. São verbos de nervos entre os relevos daqueles tesouros de tentar...e essas árvores inexistentes demais para o brotar. Antes fosse. Só isso.

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