26 de abril de 2016

Mínimos Oratórios d'Água para Guardar Hojes

Óleo s/ tela - Tomie Ohtake - 1960.


15 - do estio  -

Estou no lado mais oco
das palavras, agora.

Socorro-me do que oro
e do que vigio
me cerco...

A seco,
obceca-me o rio.

Reage-me de escrita,
 em região incerta.
Pouca.
Aberta em mar fugidio.

Secreta de não saber mais
a direção desses vazios
aos berros...
          enterro ecos nas pedras.

Percorro, por precaução,
a anatomia das coisas
não mapeadas pela força...
das águas
que moravam no coração
e seu alpendre.

Pende do bolso do dia
uma península,
e uma bússola já dispersa,
há muito guardadas
para horas como esta:
de alarido árido.

Quando há um poema moído
entre as frestas da saída.

Mas ele às vezes melhora
na medida em que se manifesta.
Legítimo de ilha. Falho. Tardio.
Istmo de espera.

Estio.

Ampara-me nos ritos...
contorcidos no peito feito ferro,
pelos ritmos, se estes se alteram.

Soletra-me de hidrografias quistas.

Mesmo que não exista nenhuma pista
 de quando virá a tempestade.
Mesmo que as aves sufoquem no relento
aéreo.

Porque fúria e firmamento irrigam
 apenas o mistério
- nada térreo -

Nuvens, isoladas dos solos sedentos,
 chovem para dentro.

Alento-me ainda das sílabas
que sabiam, e que saíam dos lábios das Sibilas.
Aos meus lamentos pastos!

Céticos. Mas cânticos!
Pastos. Mas cânticos!

Humanos de rosto.
Semânticos de rastros.

Sétimos de tantas semanas
não marítimas.

Mas.

Tesouros de Procurar

"Gudi" - Tintas mistas sobre tela - Rafa Barrozo

Antes fosse. Só o medo a consentir a entrega dessas pedras preciosas da infância e seus tesouros brincados de procurar. Nunca os achamos. Mas tínhamos fotografias das manhãs de sábado no meio dos gados. Felizes! Bolas de gude mais valiosas as azuis que pareciam planetas e as brancas com anel esverdeado. Não é de se pensar que em estado de paciência, os verbos profiram quartzos, rubis, safiras de descrença,  centenas de sentenças poéticas e pontes. Algumas já de safenas.  Não é de se pensar não. Que estou no canto menos terreno do quarto agora e socorro-me de selva para escrever coisas mais amenas, como um passeio imaginário pelas savanas e por tantas semanas quantas forem necessárias, a fim de acreditar que todo pranto será removido para muito além de um lado a outro da parede em riste. Esse ponto triste se move no excesso dos olhos.  Atravesso-o. Faço um transplante de sonhos. De ossos. Transparente é o acesso,  vidro moído rente à cara e umas flores num copo logo à frente. Tenho palavras dormentes, presas nessa pressa, nessas correntes de ar,  no lado de fora do acaso. O sono se repete e me leva ao pomar suprimido de meu pai. Os figos eram guardados para mim. Os figos!  E as fugas e os anjos. E as laranjas. Limas... depois de serem miniaturas de flor em lume. É meu costume vir aqui. Podar as pedras, as perdas... imaginar o antigo vermelho dos caquis. Mas não é de se pensar nos adubos da devolução. São verbos de nervos entre os relevos daqueles tesouros de tentar...e essas árvores inexistentes demais para o brotar. Antes fosse. Só isso.

Mínimos Oratórios d'Água para Guardar Hojes



XIV - dos resgates  -

Bendita a idade das suturas
se a água fratura suas datas.

Percorro os ossos das cascatas
feito quem resgata de si mesmo

o código de um ofício,
no córrego que passa
por dentro do cálcio, do ócio proibido,
entre os pés do precipício.
Trôpego. Antídoto.

Trafego uns princípios de louvor
e eles afloram no clamor do instinto,
em labirintos musicais

de um cais infinitamente distinto
 dos demais. Um cais já com muletas.
Navais.

(E as borboletas nos varais
recolhem a polpa dos orvalhos.

Além da culpa. Dos não-itinerários.

Embrulham nas asas o pólen
de uns rosários em flor
aberta pétala por pétala
dos calendários.)

Descansemos dos sentidos.
Anti-horários. Antigos.

Descansemos assim
que chegarem os querubins
para o restabelecer das águas
quebrantadas.

Cada água tem seu exílio.
Auxílio. Apelo.
Com seus cabelos em véu
de espuma e espelho,

uma a uma...
ainda prece.

Acresce-nos do que fomos
e do que não seremos...

nas refinarias dos dias menos
sagrados,
com nossas feridas contadas.
Mancas.

 Serenemos!

Mínimos. Pequenos.
Vertebrados e sós.

Tal qual a voz das ladainhas
no leito dos enfermos, saibamos

descer um tom e meio, a eito,
nos alados prelúdios de Deus
 e seus dilúvios-gládios.
Prévios. Do que está feito.

O outro Nome do dia



Não era de doer o dia. Se contemplamos a cerração da vida antes do mormaço. Andarilhos que somos de uma sempre nova espera. Se acreditamos desde já em nosso humilde desfecho cíclico e vimos melhor, por antecipação, nossa rápida participação nesse mistério. Não era de doer o dia. Mas se um cão bebe água da poça e no contar dos próprios ossos esboça-me sua fome, o dia passa a ter outro nome. Onde nada mais dorme. Sobre a plataforma disforme do viver vejo um viveiro à deriva...E tenho medo da raiva. E arranco a relva tentando salvar a calma na palma soterrada do lembrar. Se éramos pássaros e já fomos pomares. Se fomos areia marinha no revirar das ondas com seus nervos pelos ares. Nós, que sequer sabíamos chorar...desde o ninho das contendas, quando sonegaram-nos o canto nas quedas da floresta. Basta apenas mais um acalanto de concentração. Mais um, apenas, para que aguentemos o desaguar desatento das coisas prometidas. Para que o amor nos reaja em rajadas alcançáveis ainda nesses ventos. E o sofrimento nos proteja desses outros dias que faltam para salvar a luz dos esquecidos sob os limbos, sob os lírios do campo e os símbolos dos serafins, dos jardins enlouquecidos, das rosas enlaçadas ao corpo,  do torpor das calçadas e outros desalojamentos. Porque não é sempre que chove. Porque há de haver uma coleta de sóis mais amenos depois do que pudermos durar. Uma colheita a dourar a epiderme secreta dos destinos. Se não desistirmos no meio da flora do coração - também canino - No meio da última hora aberta sobre a terra. Quando lançarmos mão do aço e soltarmos do pulso o cronômetro do cansaço...e só a esperança, enfim, puder nos acertar. De vez.

Mínimos Oratórios d'Água para Guardar Hojes


13 - dos renasceres -

Haja alicerces às margens
 ainda de ser...

Para quem quer que seja!

E tijolos e júbilos freáticos
no subsolo de cavar,
desde os calvários,
renascimentos quantos...

Aquáticos. Quânticos.
Sonâmbulos.

Cimento. Cal. Vento.
Reinventário de hidrovias

de onde se via, mais cedo,
um sol a escaldar
a vivenda das promessas,

nessa missa a se verter
por dentro do retiro

entre respiros e respingos
 de retirar o míssil
 do navio e seus veios...

feito quem reitera
os próprios pulsos
e outros pertences
de lutar.

Sob o luar, no outro lado da água,
densa,
prorroga-se de crença uma oração,

até a quase última estação...
sem subestimar uma única
peregrina lágrima
do progredir...

na duração dos sudários,
na eira sem beira das ribeiras
de tudo o que morrer já não pude.

Por aço ou açude.