25 de março de 2016

Mínimos Oratórios d'Água para Guardar Hojes



XII - dos aguaceiros -

Ainda é cedo
nos ossos adormecidos
das batalhas.

Sonhei que estava lendo
esse poema - agora em curso -

Mas creio que não era
em nenhuma praia.

Era um não lugar. Avulso.

E eis que ontem
os aguaceiros foram trazidos
pelo mormaço.
Aos sustos.

Aos justos de sede e de séculos.

Hoje o céu nublado em círculo
se espalha.

Há uma navalha de nuvem
 acidental que reinventa a si mesma.

Quaresma. Prisma interior.

Vigésima água repetida
de tudo o que trago.

Mil olhos machucados
de entulhos e talhos
nas arrebentações.
Bentas.

Tantos gatilhos socorridos
em doses lentas,
e outros estragos na estrada
estrutural do tempo.

Temporal ainda submerso
nos poros dos reparos.

Dispara-me a noite
com seu universo.
Faz-se clara, encharcada,
nas palhas dos porões...

Nas colisões das quilhas
choro...em localização.
Olho para os astros.

São rostos imantados
das armadilhas já dispersas
dos desperdícios cíclicos
de vidas,
das quais há muito perdi
o rastro.
O risco. O grito. A chave.

Mas os caminhos se abrem
em guarda-chuvas.

Às coisas novas.
Às coisas uivas.

Mínimos Oratórios d'Água para guardar Hojes



11 - antes de acordar -

Creio mais nos sábados
porque acho que eles não sabem rezar.

Minutos antes do acordar
costumo vir aqui
nessas nascentes
 preparar os olhos

e manter em dia
as oradas do porvir.

Espargir gotículas seculares,
recolher os benzimentos,
proteger os lugares mais sozinhos
do pensamento.

Música celta involuntária. Aquática.
Cética. Ática.

O mar Egeu não me elegeu guarda-vidas.
Mas Deus?!!

Eu...que navegava em liturgia e
sem fronteiras,

que tinha balsas!

que não acreditava no passo em falso
dessas ondas...

e as chamava pelo nome.

Desanimo dos ninhos marinhos
de Deus - de novo Deus -
 mas não sei...
 onde Ele estava na hora tão brava.

Agora - de novo agora -
tudo está a um palmo
da alma
e ela é líquida.

Tudo é líquido.
E foge pelos cantos dos olhos.

Porque não há acordos no mundo.
Ao acordar.

8 de março de 2016

A mulher de que sou feita



A mulher que de mil longes
me alforria
 chama-me para o exemplo
de um tempo que se ausenta.

Um campo
 repartido de palavras,
com flores carpidas dentro,
a concentra.

A mulher em que me hospedo
aprendeu a domar metade das pedras:
emparedou-as nos preâmbulos
do rio.
Não lembra mais em que rio.

Aprofunda o desafio
de saber o que já não serve
para sorver...
na curva incerta das falanges.

Absolve-se de tudo que ainda range.

Abrange-se nas margens descalças
- tão mais libertas -
do manco dos tamancos.

A mulher em que me estanco
não se isenta daquela que não fui,
mas flui, atenta,
aos trancos...
no tinto vinho dos quarenta.

Experimenta a vida desde a ida
dessas vinhas.

Dessas vindas...e vindas.

2 de março de 2016

Mínimos Oratórios d'Água para Guardar Hojes

Óleo s/ tela - Tsunami - Laura Madeo


X - das Tsunamis -

Conseguíamos seguir
aqueles peixes que saltavam
 para fora do oceano.

A velocidade tão vasta,
 nunca menor que a sincronia
de ir embora.

Guiavam-nos num mar alto,
já sem espectros.
Sem mitos.
Em litros de palavras
doadas pela coragem que tem...
todo perigo.

Agora, jogadas num canto
do infinito
daqueles dias,
açoreiam as margens,
as cartilagens das horas...

Aragens incumbidas
de esquecer.

- desábito -

O sol abatido
 nas travessas das nuvens
continua
 a ser apenas o que sempre foi.

Um sol. Soldado. Solícito.
Mas que sabe raiar a água
com mãos de ouro.

Auras e ouriços.
No coração movediço
de lembrar.

Enquanto o retilíneo mapa dos sumiços
predomina. Desafia.

Havia uma bacia de alumínio
no quintal calorento de sermos
criança,

onde guardávamos tsunamis
em miniatura,

entre os liames das rendições e das solturas...

etéreas ondas vindouras
ainda estouram por dentro do presente
de nossas idades.

 Cidades interiores.

Incidem nas saudades recusadas
no recuo das memórias

dessas marés em crescimento.

Sonhávamos com Deus
numa plantação de alentos

em plena reconstrução
pelos cedos das manhãs.

E tínhamos o frio das tainhas.

E tínhamos cedros.
E tínhamos credos...

Nada do que não pudéssemos
nos salvar.

Chá das cinco

Relógio e xícara de chá - Regina Oliveira


O vento vasculha meus esforços.
Não sei se posso
arremessar-me dessa ilha
para as derivas medievais.

Não sei se devo
averiguar os verbos tanto, na verve
turva dessa instância.

Perder o prazo na dúvida
 num atraso da tristeza.

Organizo granizos sobre a relva
vespertina.

A tarde aglutina minha selva
posterior a tudo.

E mudo.

Salvo sálvias no interior da horta.
Legítima de charco.

Aorta marítima no relevar dos barcos.

Velejo bálsamos dentro do chá
das cinco.

Finco a âncora no amparo
do meu templo.

Amplio a casa no descaso.

Tento.