8 de janeiro de 2016

Lá fora já está aqui...




Pressinto assuntos melhores para hoje. Há sol nos remendos da cortina de estimação. Caracóis e ostras no outro lado da praia. Vivos. Esse vivos está sobrando no texto. Há um varal desistido de arames. Aroma de bolo de canela e de um café recente passeiam pelos cômodos da casa. A janela se abre com seu vestido de tergal. Moram miniaturas de âncoras e rodas de leme sobre o tecido azul cobalto. Legítimas brisas marinhas que ajudam no impulso do ritmo semelhante ao dos balanços de ainda não ser adulto. Eu sempre olhava para cima pensando que as cordas tinham o dom de arrebentar. Mas não. Contrariando Jó, nem tudo aquilo que temi me sobreveio. O corpo ainda está na cama...prepara os olhos. Os ossos. Planta melhores paisagens por essas lentes. De contato. Levanta devagar para não acordar a parte abstrata do medo, e espia uma pipa com formato de águia. É tão longe lá fora. Ela rodopia e se inclina até a esquina da próxima nuvem. Estabiliza. Nada no ar. É o princípio das correntes por um fio. Azul suspenso. Arfa minha cidade interior, onde as ruas são densas de nascença por causa do esplendor adquirido antes da edificação das expectativas. Avanço. Debruço-me no colo das soleiras, à maneira dos que se rendem desprevenidos de culpa. Estou propensa a uma resolução. Mas só porque guardei amuletos para quando precisasse. Sair. Uma chave. Tetra. Um chafariz portátil com portal. E um retrato constante. Do tempo. Lá fora já está aqui. Desde de dentro.

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