20 de janeiro de 2016

Escreverei mais tarde



Escreverei mais tarde. Quando for menos perigoso o sigilo dessas coisas não exprimíveis a sol aberto. Há grilos na luz. E mariposas despertas ainda na cozinha. Gritos verdes. Escreverei assim que tudo estiver quieto. Fixo. Durante o sono dos mosquitos. Sono definitivo. De inseticida involuntário. Extermínio vital? Caminho por dentro de onde se alternam cenários. Penso nos pés de Ingá...como eram doces os ingás. Pareciam ervilhas ou vagens mas isso não importa. Eram doces. Direi também dos orvalhos colhidos nas viagens das manhãs pequenas que prometeram e não voltaram. Havia muitas maçãs silvestres. Listradas. Suspensas em duas estradas que só podem ser vistas uma vez por mundo. Por causa da tempestade permanente que se inicia após a observação. Observar adentra. Escreverei, antes de mais nada, a respeito da concentração dos delírios que fazem sorrir o sal sobre a carne interferida dos navios. Como posso esquecer de registrar, ainda que depois, os navios, se eles protuberam durante todo o corpo dos oceanos daquilo que nada sei? Sei. Mas não agora. Escreverei mais tarde sobre a metade dos esconderijos à prova de tempo. E de medo. Eles se constituem de túneis de água invertida, inédita de salvação. Perguntarei se você sabe do desespero do peixe diante da fisga. Não há fuga nem fôlego nem escapatória nem misericórdia. Nada é cordial na extinção. Quero misturar os assuntos mas não será preciso porque eles já são um só. Barco. Berço. Arco. Eco. Eco. Aço. Água. Massa. Corpo. Carpa. Música. Físico. Carma. Febre. Febre. Febre. Escreverei mais tarde sobre a tranquilidade do dono dos bois depois de entregá-los no matadouro. Ele foi almoçar no restaurante de frutos do mar e reclamou do trânsito, palitando os dentes. Bifurcar ajuda a confluir. Estamos na mesma fila. Somos os  filhos das falhas que decepam o encanto. Escreverei mais tarde. Da borda do enquanto. Do enquanto...

3 comentários:

  1. Nem sempre entendo o que tu dizes, menina, mas sempre gosto... :)

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  2. Obrigada, Inácio!!! Um sinal de ter sentido... :)

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  3. Obrigada, Inácio!!! Um sinal de ter sentido... :)

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