25 de janeiro de 2016

Mínimos Oratórios d'Água para Guardar Hojes



5 - do Arrebol

Estabeleço conchas
para as solas
insulares

dos lugares de onde
acordo.

Estou a bordo
de não pertencer
tanto.

Trituro na pouca fome da boca
 o atento pão
molhado em espanto
e sal.

- sim, ainda há espanto -

Sou matinal de idas
e ondas.

No centro do café
enleio a lida e abro nos olhos
o jornal

para o gole ancestral de cada espera.

Tenho manhãs e unhas
arrancadas no escuro
fundo
das marés.

Pelo que sei
atravessei a ponte
 submersa
na ponta dos pés.

A nado, nácar e nada.

A parte mais solícita
dos mapas

era míope

mas anfitriava
de fé
toda a água

na sobrevida
da escalada.

20 de janeiro de 2016

Escreverei mais tarde



Escreverei mais tarde. Quando for menos perigoso o sigilo dessas coisas não exprimíveis a sol aberto. Há grilos na luz. E mariposas despertas ainda na cozinha. Gritos verdes. Escreverei assim que tudo estiver quieto. Fixo. Durante o sono dos mosquitos. Sono definitivo. De inseticida involuntário. Extermínio vital? Caminho por dentro de onde se alternam cenários. Penso nos pés de Ingá...como eram doces os ingás. Pareciam ervilhas ou vagens mas isso não importa. Eram doces. Direi também dos orvalhos colhidos nas viagens das manhãs pequenas que prometeram e não voltaram. Havia muitas maçãs silvestres. Listradas. Suspensas em duas estradas que só podem ser vistas uma vez por mundo. Por causa da tempestade permanente que se inicia após a observação. Observar adentra. Escreverei, antes de mais nada, a respeito da concentração dos delírios que fazem sorrir o sal sobre a carne interferida dos navios. Como posso esquecer de registrar, ainda que depois, os navios, se eles protuberam durante todo o corpo dos oceanos daquilo que nada sei? Sei. Mas não agora. Escreverei mais tarde sobre a metade dos esconderijos à prova de tempo. E de medo. Eles se constituem de túneis de água invertida, inédita de salvação. Perguntarei se você sabe do desespero do peixe diante da fisga. Não há fuga nem fôlego nem escapatória nem misericórdia. Nada é cordial na extinção. Quero misturar os assuntos mas não será preciso porque eles já são um só. Barco. Berço. Arco. Eco. Eco. Aço. Água. Massa. Corpo. Carpa. Música. Físico. Carma. Febre. Febre. Febre. Escreverei mais tarde sobre a tranquilidade do dono dos bois depois de entregá-los no matadouro. Ele foi almoçar no restaurante de frutos do mar e reclamou do trânsito, palitando os dentes. Bifurcar ajuda a confluir. Estamos na mesma fila. Somos os  filhos das falhas que decepam o encanto. Escreverei mais tarde. Da borda do enquanto. Do enquanto...

16 de janeiro de 2016

do que sonhava a idade



A sequência dos trigais
não se eleva em desistir.  

Subsemente convoca-me
às geografias do solo:
repete-me sem dor
e sem estilo.

Tranquilo abismo
de turvas nomenclaturas.

Agricultura interior
arando o peito
colheita a dentro,
meus ossos crescidos.
Fratura em flor.
Pele.

Tudo mais simples
do que sonhava a idade
plena de livros.

Cerimônia e silêncio
me esperam
 no lado de fora do
obstáculo.
O sono escuro.

Estábulos circundam a noite,
e seus cavalos de pensar
pretendem ficar mais amplos.

Entre os campos
cabelos dormidos de engenhos
e escombros.

Calendário escasso.
Os números machucados
antecipam com as luas as lutas...

Cadapedra é pão que não se cumpriu.

8 de janeiro de 2016

Lá fora já está aqui...




Pressinto assuntos melhores para hoje. Há sol nos remendos da cortina de estimação. Caracóis e ostras no outro lado da praia. Vivos. Esse vivos está sobrando no texto. Há um varal desistido de arames. Aroma de bolo de canela e de um café recente passeiam pelos cômodos da casa. A janela se abre com seu vestido de tergal. Moram miniaturas de âncoras e rodas de leme sobre o tecido azul cobalto. Legítimas brisas marinhas que ajudam no impulso do ritmo semelhante ao dos balanços de ainda não ser adulto. Eu sempre olhava para cima pensando que as cordas tinham o dom de arrebentar. Mas não. Contrariando Jó, nem tudo aquilo que temi me sobreveio. O corpo ainda está na cama...prepara os olhos. Os ossos. Planta melhores paisagens por essas lentes. De contato. Levanta devagar para não acordar a parte abstrata do medo, e espia uma pipa com formato de águia. É tão longe lá fora. Ela rodopia e se inclina até a esquina da próxima nuvem. Estabiliza. Nada no ar. É o princípio das correntes por um fio. Azul suspenso. Arfa minha cidade interior, onde as ruas são densas de nascença por causa do esplendor adquirido antes da edificação das expectativas. Avanço. Debruço-me no colo das soleiras, à maneira dos que se rendem desprevenidos de culpa. Estou propensa a uma resolução. Mas só porque guardei amuletos para quando precisasse. Sair. Uma chave. Tetra. Um chafariz portátil com portal. E um retrato constante. Do tempo. Lá fora já está aqui. Desde de dentro.

7 de janeiro de 2016

Mínimos Oratórios d'Água para Guardar Hojes



IV - MADRUGADA

A extensão da luz promete
 acervos mais calmos.

Alumbra meus ombros.
Finaliza dezembros cansaços.

Dizem que é vocação
precipitar o sono
por estas pedras na encosta.

Não sei se posso vir
mais,
esse fugir diagnóstico,
sem rotas de
ancoragens.

Os que submergem parecem números:
bumerangues humanos
sem volta.

Escolta de feixes
até a última gaivota
se fechar
nos pequenos olhos,
ainda recentes de viver.

Devotos soltos
- depois de mortos -
na orla.
Corpos à mostra
sem pérolas.

Córneas e pernas devolvidas.
Baixa maré.
Onde sonhos já não se debatem:
flutuam em nova casa
ou esfera.

Quando seremos nosso próximo
lume
onde abraços sejam remos?

Como será a chaga
nos restos das chegadas
nesses terrenos temporários
de estar?

Quando os itinerários
convertidos em sereno
para que nada do que
falte nos falhe?

De que lado nos aguarda
a fonte das advertências
com nossa água rasa,
em cruz lacrada?

Análoga lágrima
depois da ofensa
na madrugada...

resmunga a paz
desabrigada
em pingos
que aspiram
cicatrizes mais sólidas.

Perfaz o furo no peito
das proas.
Medita a mágoa
interditada
na caída da garoa,
essa filha das enchentes,
em crescimento.

Emancipa meus desertos.
Coloca de pé
a fé
desabituada dos relentos.

1 de janeiro de 2016

Para o ano novo...



Os fins não justificam
os medos.

Então
que ao menos os anjos
cuidem das marés.

E o mar tenha a generosidade
de não agredir
a fuga.

Porque há uns barcos pequenos
no lado de dentro.

- que ninguém faça mais
nascer a fuga -

Que o ano novo traga
estoques de ajuda.

Estanque as correntezas
do ódio,
transborde odes
de paz e amizade.

Que a fé não seja o único lugar
seguro,
 mas traga algo além
do alento
 no escuro.

Restaure os terrenos, as luzes,
os risos, os rios, as casas,
os camicases arrependidos...

Que a nova fase
encontre oásis humanos.

E que este não seja só
 mais um poema só
 de fim de ano.