5 de setembro de 2015

Mais um pouco de prosa...

Breves Ensaios Recortados para Pulso



DOZE

Estou anoitecendo. Em cada cão que encontro morto às margens do asfalto pelas manhãs vestidas de novas. Nem vou falar dos cavalos magros, feridos diariamente no corpo das carroças, com seus ossos saltados de crueldade e olhos vendados pela metade. Atropelo-me de modernidade mas não sei. Não sei como organizar essas dores urbanas dentro do coração ainda humano. Penso nos cães e suas famílias. Quantos cães sucumbem solteiros? E quantos são esmagados ainda na infância pelas circunstâncias da pressa? Sim, a covardia tem pressa! Vias de expressas selvagerias. Vazias de qualquer possibilidade de se colocar no lugar do outro. É que os homens resolveram asfaltar as ruas e os animais. Então decidi comparar. Comparo os homens ao Deus: imagem e semelhança? Já os cães assemelho-os aos homens, salvaguardando a superioridade dos cães, é claro. A questão é: quem está no comando?  Eu vi um cão mas não queria. Não queria vê-lo com a arcada dentária fora da boca. Os olhos supostamente abertos. Indefesos. Nos humanos, por vezes, vejo mandíbulas e atitudes  infectas de sentimentos multidores, pavimentados de estupidez, com seus rostos altivos. Primitivos vivendo em tempo diverso. Contorço-me de tanto pensar, porque não sei despedir-me assim, demais. E depois, eu tenho muito medo de tudo que não seja cão.  Então, estou anoitecendo cedo e não é fácil alterar a morte desses cães em mim. E há os felinos também. E os gambás e os tamanduás e os lagartos e tantos outros que precisam atravessar, vez ou outra, nessa vida. E há os mistérios e as escolhas que eles não têm. Já vi humanos desviarem automóveis  frente a animais inesperados, mas também já me deparei com gente que riu e acelerou ainda mais o motor da brutalidade que, cada vez mais,  vai de encontro às pernas - já bambas - de minha fé.  Isso sem falar dos cavalos magros, feridos diariamente no corpo das carroças, com ossos saltados de crueldade e seus olhos vendados pela metade...Um sofredouro a céu aberto.

Breves Ensaios Recortados para Pulso



50
(o último da série )

É preciso entrelinhas nas ilhas.
Foram tantos fios paridos das agulhas... Com eles restaurei espaços e pulsos, que mais parecem raízes azuis. Alinhei cicatrizes em ponto cruz: caligrafias desafiadas no lado mais alto dos relevos. Escrevo solto para arriscar-me um pouco dentro da possibilidade dos abrigos. Feito alguém que abre um figo em plena fuga dos afagos, distraída, me fecho,  porque costumo ficar frágil na cavidade dos naufrágios. Mas não digo. Salvei dois afogados no repuxo. Só. Sobrevivi ao perigo daquele dia em que cortei meus pés nas conchas, e fiz um pacto com o mar mais próximo de tudo o que não se deve esquecer. Depois, conheci pescadores antigos que não sabiam nadar, mas na proa da canoa fincavam-se em equilíbrio. Eram especialistas em ficar de pé. Colecionavam candelabros e lamparinas nos ranchos de lapidar tempo. Temperavam tilápias  nas salinas da tarde e as assavam nos ventos da noite, nem sempre quente. Anciãos que  eram, coziam pirão desde os sonhos. Castanhos medos advinham das espinhas atravessadas em seus olhos. Quase sempre tinham dor nas respostas. Cegueira pronta sobre o dissabor. Das postas. Custa-me descobrir seu rastro, agora, no rosto fixo, enfaixado, da memória. Eu que nem pude salvar os peixes. Estou dentro do mar. Ainda. Há uma irritação solar a latejar nos poros. Não!  Não é o sol. São as algas. Quero dizer águas-vivas. Elas são tão imprevisíveis quanto raios. Saio devagar. Estou voltando. Ao meio. Antes, semeio barcos na correnteza. Devem nascer mais fortes, dessa vez. Talvez, haja uma lavoura de navios. De novo.