1 de março de 2015

um pouco de prosa...

da série
Breves Ensaios Recortados para Pulso

TRÊS

Ai de mim que aspiro. Ai de mim que espero a coagulação do azul sobre o horizonte incinerado para a purificação das expectativas. Porque concluso, o chão exerce sobre os que crêem, um efeito de ímã despertador. Porque de metal, as raízes do sol se movem lentamente na membrana dos glóbulos, como se fosse hora de amanhecer. Se não lembro do relógio é porque não faz parte do meu pulso. Se não lembro do relógio é para permanecer mais tempo no outro lado de mim: aquele menos ponteiro. Ah sim, sim. Já estou indo para a reunião. Reunir é um ato provisório demais para os dias que não me preparei viver. Reunir é aleijar a poesia que me cabe.Quando havia tempo em meu calcanhar, costumava sair lá fora, apontar a face para o céu. Custa tempo olhar o céu. Custa chão tecer o não. Agora sim.
Mark Rothko

um pouco de prosa...

Breves Ensaios Recortados para Pulso

                                           DOIS

Dentro de uns ontens, vertigens de anjos sobre a pele do asfalto. Nuvens de cobalto arrastavam seis olhos contra o tempo. Era deus. Predestinando-nos ao invisível, provando-nos em cegueira, furtando pedaços do percurso. Era deus abrindo uma fresta do infinito, permitindo que espiássemos o corpo do nada em instantes fugidios. E a paisagem varava as retinas alinhando desvios em dimensões idênticas. As almas já sem placas, sinalizavam energias longínquas deste mundo, desprotegidas de matéria: livres dos cinco sentidos.
Éramos quinta-feira e parecíamos a eternidade. Rindo.
Mark Rothko