26 de dezembro de 2015

A ponte pênsil do silêncio



Seguro a ponte pênsil do silêncio para escrever sobre  precipícios cegos, recém-chegados, com vista para a sorte. Singro-me e eles me refazem partir do ponto que mais nos atinge em queda livre: a invalidez das escolhas brotadas no leito crescente dos massacres. Alguns se dizem sacros, outros lacustres, outros embustes...todos sem nenhum acréscimo de humanidade. Rompem o lacre mal feito no parapeito das cidades e o que dentro delas nos transtorna. Escrevo sob a plataforma de uma fraqueza nascente. Mas que não se exime. Sob o crivo dos anti-alívios, dos uivos convertidos em raiva de tristeza. Saraiva interior. Sem  fortaleza estou perdendo o ritmo. Ouço respiros no rio e uns tiros longínquos num fado fixo advindo das derivas, lá onde Deus quase não salva: saliva. Soluça. Está bravo? Não sei... Não sei se devo escrever assim, miúdo, entre o medo e o mundo. Escudo e alvo. Selva. Não sei se devo levar-me em equilíbrio nesses vocábulos que não se acostumam com o desprezo, com o prejuízo súbito de ausências não prometidas. Então adjetivo. Adjetivo e desabrigo-me no transbordo das surpresas. Escrevo. Escavo meu coração feito o tigre a sua presa. Rezo. Mas tanto, tanto, que tento lavar a correnteza. Esfrego-a nos olhos feito quem esfrega a roupa na pedra.  Deito a cabeça sobre a mesa.  Dobro os braços, redobro a rima, mas é difícil porque preciso perfurar a escassez do frágil solo das urgências. É tarde. Tem rumo de naufrágio essa terra. Terror sem nome consentido. E o dia era de uma cor mascava. Sólida. Os nervos d'água mantidos, rijos, enquanto se alavam - apáticos -  os peixes e outros animais menos aquáticos. Matar um rio e seus filhos requer derrames pelo caminho e andaimes de arames na alma em farpa. Na alma em falta. Sozinham.


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