15 de setembro de 2015

Breves Ensaios Recortados para Pulso



SEIS

Abrevio o ritmo na conjunção dos fios. Agulho arrependidas aberturas na carne anterior a esta. Tenho as pálpebras repuxadas, nervosas de lembrar. Quando ainda era morte desistir do tempo, eu frequentava com menos cuidado as facas. Eu duvidava de Deus  com mais força e menos tarde. Hoje, sou tão domesticada a esperas, porque comprimo a morte em pequenos frascos transparentes. Assim, posso vê-la como se vê um animal mergulhado em formol. Ou nas cinzas de si mesmo. Assim, posso entendê-la pior. Tenho tanta tristeza da falta de escolha dos animais, sobretudo dos anfíbios, que conservam a pele com eterno rancor. Um dia, na saída dos fundos de um prédio, vi uns três ou quatro humanos capturarem um sapo. Depois, cuidadosamente, enquanto riam feio,  deram-lhe um banho de gasolina e riscaram um palito de fósforo, lançando-o sobre a falta de escolha. Queriam ver o tamanho do salto. O que era o tempo para aquele anfíbio? Como vingar sua agonia gerada pelas mãos de minha própria espécie? Imprópria. Não sei se o grito foi mais alto ou o salto. Eu tive que seguir. Aperto meus pontos enquanto penso no que penso. Então escrevo para alinhavar um pouco mais o pulso esquerdo. Enquanto isso, as horas vão  cicatrizando o anfíbio que há em mim. Antes que seja morte. Morte demais.

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