5 de setembro de 2015

Breves Ensaios Recortados para Pulso



50
(o último da série )

É preciso entrelinhas nas ilhas.
Foram tantos fios paridos das agulhas... Com eles restaurei espaços e pulsos, que mais parecem raízes azuis. Alinhei cicatrizes em ponto cruz: caligrafias desafiadas no lado mais alto dos relevos. Escrevo solto para arriscar-me um pouco dentro da possibilidade dos abrigos. Feito alguém que abre um figo em plena fuga dos afagos, distraída, me fecho,  porque costumo ficar frágil na cavidade dos naufrágios. Mas não digo. Salvei dois afogados no repuxo. Só. Sobrevivi ao perigo daquele dia em que cortei meus pés nas conchas, e fiz um pacto com o mar mais próximo de tudo o que não se deve esquecer. Depois, conheci pescadores antigos que não sabiam nadar, mas na proa da canoa fincavam-se em equilíbrio. Eram especialistas em ficar de pé. Colecionavam candelabros e lamparinas nos ranchos de lapidar tempo. Temperavam tilápias  nas salinas da tarde e as assavam nos ventos da noite, nem sempre quente. Anciãos que  eram, coziam pirão desde os sonhos. Castanhos medos advinham das espinhas atravessadas em seus olhos. Quase sempre tinham dor nas respostas. Cegueira pronta sobre o dissabor. Das postas. Custa-me descobrir seu rastro, agora, no rosto fixo, enfaixado, da memória. Eu que nem pude salvar os peixes. Estou dentro do mar. Ainda. Há uma irritação solar a latejar nos poros. Não!  Não é o sol. São as algas. Quero dizer águas-vivas. Elas são tão imprevisíveis quanto raios. Saio devagar. Estou voltando. Ao meio. Antes, semeio barcos na correnteza. Devem nascer mais fortes, dessa vez. Talvez, haja uma lavoura de navios. De novo.

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