29 de setembro de 2015

A chuva sabe o que faz



Não sei se tudo vai ficar bem. Tem um atravessado de nuvens lá fora. Cores e formas que falam. Desenhos  e senhas suspensos no firmamento. Não mais tão firme. Portais. Portáteis. Portos encobertos no mar aéreo. Ao meu lado - em terra -  os pássaros se alimentam de farelo de milho, agora molhado pela chuva, sobre a mesa do quintal. Alguns gostam de frutas. Eles parecem bem, mas são mais agitados do que eram antigamente. E eles sempre conversam muito nessa hora. Qual o assunto? Há inúmeras hipóteses e todas são capazes de captar algum grão de alegria. São seis e vinte e dois. Às vezes não durmo, de medo,  mas não sei de quê. Depois, fico cansada e o dia se mostra interminável. A respiração das coisas  aumenta muito ao redor, conforme dilata-se o cotidiano, com suas atribuições de fazer funcionar o coração metálico do mundo. A respiração em si mesma pede para respirar, quando é assim. Porque há uma discreta asfixia na pressa sem comoção. Estamos correndo para onde? Percebo uma falta de inteireza nos relógios quando tudo está por se aguardar. E tudo o que se aguarda já está. Sempre esteve. E é sem volta. Sinto as belezas se desprenderem dos afetos, feito essas gotas que saltam do telhado. Na verdade parecem se jogar de um incêndio. Telhados são proteções, me disse uma especialista em almas, ao me pedir que desenhasse uma casa. Só porque fiz todas as telhas perguntou-me ela: "por que tantas telhas?". Disse-lhe que eram os alicerces, só que do lado contrário da casa. Ela sorriu com delicadas certezas em seu silêncio. Era silêncio bom, porém, não caberia nesse momento explicar uma por uma as goteiras dos sentidos, caso eu soubesse. Talvez uma espécie de pânico se estenda - hoje um pouco mais -, por causa dos vidros fechados aqui; das vidas e das dúvidas em aberto. No entanto, é um pânico quieto. Mais nos olhos do que no resto. É assim... para dentro, lá onde se misturam os mistérios. Não sei se tudo vai ficar bem. Os passarinhos tomam banho no pote de guardar chuva. Eles pulam com um ar feliz. A chuva sabe o que faz.

15 de setembro de 2015

Breves Ensaios Recortados para Pulso



SEIS

Abrevio o ritmo na conjunção dos fios. Agulho arrependidas aberturas na carne anterior a esta. Tenho as pálpebras repuxadas, nervosas de lembrar. Quando ainda era morte desistir do tempo, eu frequentava com menos cuidado as facas. Eu duvidava de Deus  com mais força e menos tarde. Hoje, sou tão domesticada a esperas, porque comprimo a morte em pequenos frascos transparentes. Assim, posso vê-la como se vê um animal mergulhado em formol. Ou nas cinzas de si mesmo. Assim, posso entendê-la pior. Tenho tanta tristeza da falta de escolha dos animais, sobretudo dos anfíbios, que conservam a pele com eterno rancor. Um dia, na saída dos fundos de um prédio, vi uns três ou quatro humanos capturarem um sapo. Depois, cuidadosamente, enquanto riam feio,  deram-lhe um banho de gasolina e riscaram um palito de fósforo, lançando-o sobre a falta de escolha. Queriam ver o tamanho do salto. O que era o tempo para aquele anfíbio? Como vingar sua agonia gerada pelas mãos de minha própria espécie? Imprópria. Não sei se o grito foi mais alto ou o salto. Eu tive que seguir. Aperto meus pontos enquanto penso no que penso. Então escrevo para alinhavar um pouco mais o pulso esquerdo. Enquanto isso, as horas vão  cicatrizando o anfíbio que há em mim. Antes que seja morte. Morte demais.

11 de setembro de 2015

Mínimos Orátórios d´Água para Guardar Hojes

III - NOITE



É quase ontem
em alto mar.

Do altar
escuto o escurecer

na escolta do sono.

Sereno em volta.
Escunas e sinos

Meninos longínquos
ensinam-me
- num choro secreto -
sobre o chão dos olhos
submersos
no rosto.

E me decretam
ser humano

 nas falhas.

Resgatam-me do rito
aflito
dos afetos.

Há sempre uma tontura
no caminho,

quanto menos marinho.

A mente reage em giro,
agora.

- Qual a parte mais segura
dos redemoinhos? -

Rodopio-me de dúvidas
para baixo da ausência.

A fim de que os eixos

dos seixos
me puxem a salvo

até o trapiche ou navio
mais próximo.

Desconfio da chance,
pela última vez.
 
Nessa escassez de alívio
me dilúvio.

Sou minha própria
âncora.

Elevadiça.
Manca.

Avanço-me
na alavanca dos vínculos.

Clavícula exposta
desde o labirinto.

Retorno à tona.

Em oratório secular
respiro.

Mantras escorrem pela boca
da noite
afora.

Migram a sede
até a outra margem

das demoras.

(De morar)

5 de setembro de 2015

Mais um pouco de prosa...

Breves Ensaios Recortados para Pulso



DOZE

Estou anoitecendo. Em cada cão que encontro morto às margens do asfalto pelas manhãs vestidas de novas. Nem vou falar dos cavalos magros, feridos diariamente no corpo das carroças, com seus ossos saltados de crueldade e olhos vendados pela metade. Atropelo-me de modernidade mas não sei. Não sei como organizar essas dores urbanas dentro do coração ainda humano. Penso nos cães e suas famílias. Quantos cães sucumbem solteiros? E quantos são esmagados ainda na infância pelas circunstâncias da pressa? Sim, a covardia tem pressa! Vias de expressas selvagerias. Vazias de qualquer possibilidade de se colocar no lugar do outro. É que os homens resolveram asfaltar as ruas e os animais. Então decidi comparar. Comparo os homens ao Deus: imagem e semelhança? Já os cães assemelho-os aos homens, salvaguardando a superioridade dos cães, é claro. A questão é: quem está no comando?  Eu vi um cão mas não queria. Não queria vê-lo com a arcada dentária fora da boca. Os olhos supostamente abertos. Indefesos. Nos humanos, por vezes, vejo mandíbulas e atitudes  infectas de sentimentos multidores, pavimentados de estupidez, com seus rostos altivos. Primitivos vivendo em tempo diverso. Contorço-me de tanto pensar, porque não sei despedir-me assim, demais. E depois, eu tenho muito medo de tudo que não seja cão.  Então, estou anoitecendo cedo e não é fácil alterar a morte desses cães em mim. E há os felinos também. E os gambás e os tamanduás e os lagartos e tantos outros que precisam atravessar, vez ou outra, nessa vida. E há os mistérios e as escolhas que eles não têm. Já vi humanos desviarem automóveis  frente a animais inesperados, mas também já me deparei com gente que riu e acelerou ainda mais o motor da brutalidade que, cada vez mais,  vai de encontro às pernas - já bambas - de minha fé.  Isso sem falar dos cavalos magros, feridos diariamente no corpo das carroças, com ossos saltados de crueldade e seus olhos vendados pela metade...Um sofredouro a céu aberto.

Breves Ensaios Recortados para Pulso



50
(o último da série )

É preciso entrelinhas nas ilhas.
Foram tantos fios paridos das agulhas... Com eles restaurei espaços e pulsos, que mais parecem raízes azuis. Alinhei cicatrizes em ponto cruz: caligrafias desafiadas no lado mais alto dos relevos. Escrevo solto para arriscar-me um pouco dentro da possibilidade dos abrigos. Feito alguém que abre um figo em plena fuga dos afagos, distraída, me fecho,  porque costumo ficar frágil na cavidade dos naufrágios. Mas não digo. Salvei dois afogados no repuxo. Só. Sobrevivi ao perigo daquele dia em que cortei meus pés nas conchas, e fiz um pacto com o mar mais próximo de tudo o que não se deve esquecer. Depois, conheci pescadores antigos que não sabiam nadar, mas na proa da canoa fincavam-se em equilíbrio. Eram especialistas em ficar de pé. Colecionavam candelabros e lamparinas nos ranchos de lapidar tempo. Temperavam tilápias  nas salinas da tarde e as assavam nos ventos da noite, nem sempre quente. Anciãos que  eram, coziam pirão desde os sonhos. Castanhos medos advinham das espinhas atravessadas em seus olhos. Quase sempre tinham dor nas respostas. Cegueira pronta sobre o dissabor. Das postas. Custa-me descobrir seu rastro, agora, no rosto fixo, enfaixado, da memória. Eu que nem pude salvar os peixes. Estou dentro do mar. Ainda. Há uma irritação solar a latejar nos poros. Não!  Não é o sol. São as algas. Quero dizer águas-vivas. Elas são tão imprevisíveis quanto raios. Saio devagar. Estou voltando. Ao meio. Antes, semeio barcos na correnteza. Devem nascer mais fortes, dessa vez. Talvez, haja uma lavoura de navios. De novo.