19 de agosto de 2015

Mínimos Oratórios d'Água para Guardar Hojes



II - TARDE

Um rosário de chuva
se move.

Envolve-me
na verve parda
da tarde,

como se não fosse
anoitecer.
Logo.

Rogo-me
num recital celeste,
 
engasgo em mim o antigo lago,
a lágrima álacre.

Grisalha. Ancestre.

Esgrima pluvial:

uns acenos feito espadas
d'água,
cruzam-se no vento
da enxurrada
monumental.

Molham tudo
o que não fica
no lado de fora

do  adeus.

Liquificam a fala
sob as capelas da pele

reabertas nas contas rasas
das costelas.

E inauguram
o recomeço
da promessa.

Sem que eu impeça.

Teço-me terço
na quinta essência
dos mistérios.

Já é terça-feira na ferida.

Intimidam-me ainda
as retinas da terra,
olhando-me de dentro
do rio,

à vespertina maneira
das esperas,

se os remos
são vésperas.

Trago as vértebras rezadas
nas roseiras do corpo,

esse campo de estancar améns.

7 de agosto de 2015

Breves Ensaios Recortados para Pulso

Quarenta e oito




Lembro-me bem do que eu disse. Que era pra abrir uma fenda a menos nos terrenos inexoráveis das planícies da razão e outras emoções complementares. Era perto o porto, portanto, acessível partir. Mas não foi assim. Foi pior. Pincéis e mísseis atravessaram o corpo do sonho nessa mesmice nascida dos cansaços. Sem a elegância  do esquecimento, é claro.  Mais isso agora!  Esses navios deteriorados de esperar. Estão por toda parte. Não sei o que faço. Não será diferente a lente ofegante da memória.  Esse elefante de marfim sobre a estante dos alvos. Esses livros...e esse leão que me olha do fundo dos ossos. Não sei se posso reparar sua dor ao mundo. No mundo. Ferida exposta. Gasta. Mais esse agosto, agora! O rosto inexistente desponta na pintura. Me espia, perfura o gesto, o gosto, o resto encoberto da candura.  Quem diria adeus a um tempo em plena hora segura?  Limpo os dentes da distância porque talvez tenha que sorrir de novo e isso é  incomum, dependendo do canto. Implanto outras mastigações na saliva nervosa, para salvação das expectativas.  Costuro vigílias nas gengivas pensativas dos projetos. Protejo-me do beijo alojado nas bagagens perdidas da coragem. Por que? Porque é mais inútil. Manter o útero aberto no lado mais forte do mistério das coisas nunca absolutas. Lembro-me muito bem do que eu disse. Que o desperdício desistisse da eternidade. Por pura precaução do sal. Da saudade.

5 de agosto de 2015

Hora do Almoço



Adio os cortes
na arte.

Abato-me
se o dia se parte
ao meio.

Saio da fome
à procura 

de um novo
ensaio

para a vida.

Desmaio
 até nutrir-me
no próprio sopro 
do trabalho.

Exaurida.

Mas há uma fratura,
ou talho
 na fartura da fruteira
 sobre a mesa,

inteira;

Uma tristeza 
inesperada
nos poros,

nas peras,

e que me brota assim...
interna, 
aberta na paciência
quase bruta,

às vesperas
da salada

calada
de fruta.