28 de junho de 2015

O Voo das Arraias


São nos raios d'água
que as arraias raiam.

O ar desmaia
em desângulo fôlego.

Losango-corpo carpindo voos
sobre marinhos quintais.

Em peitorais velozes
 perfuram a pele do mar,
talvez felizes de voltar.

Volitam antes do atrito.
Giram até o grito virar

música.

20 de junho de 2015

um pouco de prosa

da série
Breves ensaios recortados para pulso

46


É sábado e eu caminho em dobro. No lado mais lacrado do retorno vejo o céu, com seus ossos nublados, dublando a friíssima tarde. Deus canta. Pede que eu me invada e invente  novos esquecimentos a fim de expandir o trajeto em direção a cavernas mais amplas. São templos de restaurar flores para os rigores do inverno, nesses vasos comprimidos,  cansados do coração que se adianta. Em tese, tropeço diante da morte tantas vezes e ela -nos cantos do tabuleiro- me levanta. Sim, penso em Bergman, do filme. Penso nas sete cartas que não postei, enquanto submergem alecrins de coragem nessas xícaras de trazer calma. Talvez algum sono.  Insanos cântaros cheios de chá profanam toda a água brotada na antiguidade dos olhos: depõem contra a minha sede desde as paredes da garganta. Acaso-me de enigma porque estou me dobrando à obra e não sabia. São outros os tempos verbais agora, e era da alegria que o mar estava faltando, quando me bebia. É na alegria que sempre me perco. Eu prometo.

14 de junho de 2015

manhãs de estudo com Blanchot


Café de estudo com meu amigo Blanchot...

"Rilke desejava que o jovem poeta pudesse perguntar a si mesmo:  'Sou verdadeiramente obrigado a escrever?' a fim de ouvir a resposta: 'Sim, é preciso.'  'Então , concluía ele, edifique sua vida segundo essa necessidade.  'Esse ainda é um subterfúgio para elevar até a moral o impulso de escrever. Infelizmente, a escrita é um enigma, mas não fornece oráculos, e ninguém está em condições de lhe fazer perguntas. 'Sou verdadeiramente obrigado a escrever?!' Como poderia interrogar-se assim aquele a quem falta toda linguagem inicial para dar forma a essa pergunta, e que só pode encontrá-la através de um movimento infinito que o põe à prova, o transforma, o desaloja daquele 'Eu' seguro, a partir do qual ele acredita poder questionar sinceramente? 'Entre em você mesmo, busque a necessidade que o faz escrever.'  Mas a pergunta só pode fazê-lo sair de si mesmo, arrastando-o à situação em que a necessidade seria antes a de escapar àquilo que é sem direito, sem justiça e sem medida. A resposta 'é preciso' pode, de fato, ser ouvida, ela é mesmo constantemente ouvida, mas aquilo que no 'é preciso' não se ouve é resposta a uma pergunta que não se descobre, cuja aproximação suspende a resposta e a torna desnecessária."

(BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. São Paulo:
Martins Fontes, 2005. p 40-41)

12 de junho de 2015

respirações mínimas sobre o amor


O amor é um rumor de remos
lançados em mares
nunca pequenos.

Se para eles ainda não fomos,
nós iremos.

Arrumando rumos,
remoendo rimas, amoras
e arames de tecer as horas,
sobre os derrames
da eternidade
e mais um pouco de agora.

O amor é éter de atar vontades.
Avatar envolto na selva cheia,
da saudade.

Clichê, por vezes renascido
de novidades.

Longe. Porto.

Perto.Sonho.

 Senha de Eros.
 Urso.
Desenho incerto.

Insônia dos justos.

Susto em movimento.

 Relento.
Alento.

 Mantimento e fome.

Indigência.
Nome.

Gume entreaberto.
Deserto em que me encharco.
Costume. Voo.
Ninho ao vento.

Vaga-lume-marinho
com barcos de pousar dentro.

9 de junho de 2015

prosa poética

da série
Breves Ensaios Recortados para Pulso

 22
Saul Vilela



Acrescento-me de escrita para remendos mais azuis, hoje. Azuis-precisos. Celestes, as órbitas e os glóbulos reconduzem-me  aos estertores dessa música incessante, concentrada no extremo convívio de tudo (Tudo o quê?). Não posso parar para pensar agora e vou rápido para não perder o que me espera nesse fluxo assistido. Já perdoei as memórias por puro excesso de  abandono, mas isso não vem ao descaso. Apuro-me em autêntica audição para os  prelos acumulados de expectativas bem mais agudas do que isso. Quando eu podia supor suportar-me em atlântica saudade, era um sintoma muito cedo ainda,  para alguém que mais tarde saberia da anatomia desses barcos só de ida.  Adiei-me, assim, de silêncios baldios sobre os terrenos do peito em foice, pois é próprio da dor transformar-se antes da glória. Limpo o quintal. Há um rondar de águas aqui nos olhos em movimento, antes de qualquer auxílio repentino derreter o metal de meus poentes,  rente às consagrações desabitadas da razão. Aceito o não-futuro-fruto  rasgado da ação, medida a um palmo de tristeza. Tenho tanto rezado nas dobras desse tempo, que aumentei consideravelmente de hiatos minha respiração. Dilato a vida nos muros quebrados do olhar.  Sem surpresas. Mas no fundo tenho pânico. De oceanos e acenos. Esfrego os olhos do rio na correnteza.  Não esvazio nunca o sono. Corto uma laranja no meio da noite mas não adianta. Vejo dois anjos maciços no canto esquerdo da esfinge. De longe, atinjo-me na cavidade da falta e há um temor razoável:  um possível tumor às pressas que me traz flores para a despedida. Não será fácil agradecer ao medo tantas flores. Mas elas serão fortes feito aquelas ancoragens de estimação. Costuradas à mão.

2 de junho de 2015

um pouco de prosa

da série
Breves Ensaios Recortados para Pulso

TRINTA E UM

Wassaly Kandinsky - A Batalha

Escrevo de próprio punho. Aberto. Já é junho e eu proponho não desistirmos do fim, porque o fim é tão recomeçante. Suscita coragem. Sem adornos, mas bem depois. Exercita viagem de retorno de tantas coisas e não-coisas e, sabe,  algumas nem  chegaram a partir. Porque nunca estiveram. Mas como eu estava dizendo,  regressar é difícil. Principalmente quando não se pode ceder aos desvios (quem precisa deles?). Por dentro, os roteiros são os mesmos. Os mapas estão fixos. É tudo tão redundante e ameaçador e agora eu tenho  que perdoar a dança das migalhas e desconstruir a morte, a vida,  a sorte, os cortes, as côrtes. Desconstruir necessita demais de  inéditos caminhos. (Interiores?) Além disso,  não sei se posso suportar uma existência inteira de acasos, sem esculpir-me; Sem escapar-me do que não foi. Casa de seixos. Deixa-me ir. A solidão está convicta de que vou separar as conchas. E remover os peixes. E avaliar o sal em sua pele. É tempo de retirar, dos sonhos, o pior; Retirar também a gentileza a esmo,  exposta na fratura dos dias. Não. Não diga que sou doce. Amanhã poderei ter formigas na boca. Quem nunca?