25 de maio de 2015

um pouco de prosa

da série
Breves Ensaios Recortados paraPulso
Setembro - Gerhard Richter


QUARENTA E TRÊS

Quando me soletro de ausência, crescem vestígios de sal feito caramujos que já não são. É uma dor sem osso. Calabouço nas conchas que construí para proteção dos externos. Cavernas imaginárias não precisam de sol para decifrar os dias. São relógios de pedra desgovernando pulsos. São bússolas canhas à minha escrita. Quando me soletro de ausência, recolho as pedras para dormir antes. Amanhecer é um luxo para os que já não contam. É sempre um lucro indevido aos que se confinam demais na fuga. Escapulários me inscrevem na proteção porque tenho vocabulário repetido de esperança, o que é sempre um risco à literatura. Alitero-me só até a altura do som. Altero-me de fim em fim para alcançar impossíveis revestidos de sim, mas é bem raro.
No entanto,  virá dia mais claro, de bondades plenas e almas em  plumas, que acalmem das ondas essas espumas. Mãos de lumes - mais firmes -  nos lemes, da memória e seus vãos, retornarão. Porque nos cômodos da solidão dorme a fórmula da lágrima, e seus milagres em grãos. Graças aos nãos.

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