8 de maio de 2015

um pouco de prosa

da série
Breves Ensaios Recortados para pulso

QUARENTA E QUATRO
Mulher tocando bandolim-Pablo Picasso

Estilhaços à parte, que estou cantando agora... Isso não é um blues - talvez tivesse sido -. É que tenho tempos indevidos. Isso é um ensaio. Só. Eu canto lento pra dentro da indecisão e me retorno. Sem saudade. Tudo já está pela metade do fim. Por isso, amanhã sonharei com bandolins de vidro, como se fosse ontem. Ontem, apenas. Mas será tarde. Os sons já terão se movido de acordo com a luz neles refletida; luz que imita a voz e sopra de solos os dedos em calos, definindo matizes no latejar das próprias pontas. Afinal de contas, precisarei saber ouvir mais do que posso; mais do que pulso... Ritmo! Ritmo ou meu corpo convulso dedilhando vésperas? Sono áspero, entrecortado de escuros e esta música que deturpa as frestas - da razão?-. Quem dormiu de azuis as farpas? Uns bandolins com olhos de harpa:  dois anjos tão surdos que pensam que restauram as cordas.São tantas. Amanhã saberei da garganta - trincada - em soluços solícitos, por causa do espelho que duplica o corte. E que seja boa a sorte! Sinceramente, não sei como esses bandolins vieram parar aqui. Nem a harpa.


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