27 de maio de 2015

poema aos poucos

Wassily Kandinsky - Composição Clara

um poema pronto
desponta,

me apronta

 para as novidades da beleza,

a ponto da tristeza
 ser uma rima mais fácil.

posfácio do que  imaginei
prefácio contínuo.

um poema crescido,
nunca retilíneo,
prossegue em minha pequenez.

deve ser um longo futuro
esse que nos fez.

25 de maio de 2015

um pouco de prosa

da série
Breves Ensaios Recortados paraPulso
Setembro - Gerhard Richter


QUARENTA E TRÊS

Quando me soletro de ausência, crescem vestígios de sal feito caramujos que já não são. É uma dor sem osso. Calabouço nas conchas que construí para proteção dos externos. Cavernas imaginárias não precisam de sol para decifrar os dias. São relógios de pedra desgovernando pulsos. São bússolas canhas à minha escrita. Quando me soletro de ausência, recolho as pedras para dormir antes. Amanhecer é um luxo para os que já não contam. É sempre um lucro indevido aos que se confinam demais na fuga. Escapulários me inscrevem na proteção porque tenho vocabulário repetido de esperança, o que é sempre um risco à literatura. Alitero-me só até a altura do som. Altero-me de fim em fim para alcançar impossíveis revestidos de sim, mas é bem raro.
No entanto,  virá dia mais claro, de bondades plenas e almas em  plumas, que acalmem das ondas essas espumas. Mãos de lumes - mais firmes -  nos lemes, da memória e seus vãos, retornarão. Porque nos cômodos da solidão dorme a fórmula da lágrima, e seus milagres em grãos. Graças aos nãos.

23 de maio de 2015

Os Cavalos

Cavalo vermelho e azul - Franz Marc
O que eu poderia dizer dos cavalos...

é que eles transferem a limpeza
para as manhãs,
com antecedência.

Cavalos têm coração anônimo

e um silêncio irrevogável.

Não sei se posso ponderá-los
no peito, de um sonho só...
em sacrifícios aderidos.

Tenho sequelas idênticas.

21 de maio de 2015

8 de maio de 2015

um pouco de prosa

da série
Breves Ensaios Recortados para pulso

QUARENTA E QUATRO
Mulher tocando bandolim-Pablo Picasso

Estilhaços à parte, que estou cantando agora... Isso não é um blues - talvez tivesse sido -. É que tenho tempos indevidos. Isso é um ensaio. Só. Eu canto lento pra dentro da indecisão e me retorno. Sem saudade. Tudo já está pela metade do fim. Por isso, amanhã sonharei com bandolins de vidro, como se fosse ontem. Ontem, apenas. Mas será tarde. Os sons já terão se movido de acordo com a luz neles refletida; luz que imita a voz e sopra de solos os dedos em calos, definindo matizes no latejar das próprias pontas. Afinal de contas, precisarei saber ouvir mais do que posso; mais do que pulso... Ritmo! Ritmo ou meu corpo convulso dedilhando vésperas? Sono áspero, entrecortado de escuros e esta música que deturpa as frestas - da razão?-. Quem dormiu de azuis as farpas? Uns bandolins com olhos de harpa:  dois anjos tão surdos que pensam que restauram as cordas.São tantas. Amanhã saberei da garganta - trincada - em soluços solícitos, por causa do espelho que duplica o corte. E que seja boa a sorte! Sinceramente, não sei como esses bandolins vieram parar aqui. Nem a harpa.


4 de maio de 2015

2 de maio de 2015

Pra não esquecer de ler...


Viagem representa um momento de ruptura e renovação na obra poética de Cecília Meireles. Até então, sua poesia ainda estava ligada ao neossimbolismo e a uma expressão mais conservadora. O novo livro trouxe a libertação, representando a plena conscientização da artista, que pôde a partir de então afirmar a sua voz personalíssima: "Um poeta é sempre irmão do vento e da água:/deixa seu ritmo por onde passa", mesmo que esses locais de passagem existam apenas em sua mente. Como o título sugere, o livro é uma longa e sedutora viagem, mas por rotas imaginárias, identificadas pelos sonhos que se dissolvem em lonjuras sem margens, com vaga consistência de realidade, na qual as palavras se harmonizam em pura música: "Estou diante daquela porta que não sei mais se ainda existe... Estou longe e fora das horas, sem saber em que consiste nem o que vai nem o que volta... sem estar alegre nem triste" Encontro consigo mesma, revelação e descoberta, sentimento de libertação, desvio pelas rotas dos sonhos, essa Viagem se consolida numa série de poemas de beleza intensa que, por vezes, tocam os limites da música abstrata.

Fonte: www.globaleditora.com.br