27 de abril de 2015

O Sopro de Deus



               * “Quando eu virei a esquina                
 minha casa estava no meio da rua..."  

Três da tarde.
A brisa se perde nas paredes
da tempestade.

Metade das nuvens
habita a mesma instabilidade;
adere à ira.

Deus respira.
Forte.

O ar se parte e se concentra
em cirúrgica travessia.

Imprevisível sopro.
A cidade e sua sobra
se equilibram -tentam -
entre as têmporas do temporal.

Varal de humanos
 indefesos feito panos,
com seus planos a esvoaçar
 - sem radar -

Funil de vento.
Sobre a pele de todos os relentos,
expele das árvores,  passarinhos
e suas manhãs guardadas, seus ninhos;
Expele também da terra as árvores
- À revelia?

Quem diria...

Redemoinhos tocam os nervos do solo,
sem intervalo.

Cavalos voadores e casas em coice
se cortam,
giram feito hélice;
crescem nos alicerces do medo.

Ainda é cedo
mas escurece.

Por três minutos
a eternidade oferece seu conta-gotas.

Não há tempo para prece
se o sopro tem pressa.


* depoimento de mulher atingida pelo tornado de 20.04.2015, ocorrido na cidade de Xanxerê-SC.

2 comentários:

  1. Patricia: seu poema é lindo e assustador. Apesar dos horrores sobre Santa Catarina e Nepal, a poesia nos arrebata para os sopros de vida. Que Nhanderu nos acolha, Graça Graúna

    ResponderExcluir
  2. Obrigada, Graça, por sua leitura e apreciação...
    Sim, a poesia irrompe nos momentos mais fundos.
    Que Nhanderu nos inspire e nos proteja.
    Abraço imenso!

    ResponderExcluir