19 de abril de 2015

breves ensaios recortados para pulso

Quarenta e dois


Fui dormir tarde ontem.
Estive pensando nesses ensaios. Já não andam mais tão breves como antes. Por vezes, parecem cães  correndo atrás do próprio rabo.

Afinal, a vida não é justa. Ora, quem de nós não sabe?!
 (risos poucos)

Vejamos esse texto, por exemplo, queria ser um poema. No entanto, as palavras e seu entorno sinalizam que ele  será prosa - no máximo poética - em tentativa constante de evolução.

Por isso ele fala demais e corrido às vezes, pois ainda não alcançou a disciplinada sutileza da concisão. Desculpem. Não é bem de concisão que quero falar. Ele confiou a mim sua vontade de ser poema e eu que não sei mais prometer...lhe avisei que tudo dependeria do mistério.

Eu não queria fugir...Não queria fugir do assunto mas antes que eu esqueça, hoje vi saíras-de-sete cores. No sonho.
Se são pássaros? Sim, são pássaros coloridos e apenas no interior do sonho foi que eu pude compreender seu linguajar...de outra ordem.
Mas aí já era cedo.

 Um pouco eles cantavam e um pouco dormiam. Além do que eu esperava. - na verdade nem esperava nada -

Fora do sonho, eu também dormia, aliás, dormir é sempre uma espécie de pedágio para o sonho. Seria eu o deles?

Bem, o que importa é que isso não quer dizer nada além do que a alma precisa saber, mas naquele momento tão real, senti uma pequena trégua de toda mágoa escoada há séculos entre os córregos do coração.

Era uma alegria mínima,  muito desacostumada de si mesma, humilde, feito quem já sabe perder,  "premiando-me" sem que eu tivesse novos "bilhetes" para conferir.

Eram arco-íris pousados pela primeira vez sobre a pausa longa, triste e fugidia de minhas quimeras.

E  eram cantos rezados de beleza, estendidos em  miligramas de  milagres, sobre a mão de minha última descrença.

Eram flores musicais inaudíveis aos jardins engaiolados desse mundo.

E voavam entre as lacunas, aquelas, que nos arredores da vigília, não fui capaz de preencher, por absoluta falta de realidade ou excesso dela.

Contado o sonho, voltemos ao assunto inicial.

E eis que hoje pela manhã perguntei  ao meu jovem cão, Jobim: "Você acha o mundo justo?" Ele, com seu abanar de rabo, me disse contente, que não.

Sem entender, faço de conta que me contento também. Porque tenho pressa. Nem sei de quê. De terminar o ensaio, talvez.

Mas...E agora?
Pra onde vamos com esse texto que queria ser um poema e não será e que está quase latindo pra mim?

 Agora escreverei que ando em hospitais azuis-longínquos. E são reais. Visto muitas roupas de paciência por aqui.

Tenho me ensinado: os pássaros não podem cantar sempre que eu quero.

Assim são as palavras se as tornamos exaustas. E se elas voltam contra a vontade,  bagunçam o tema.

Não há critérios quanto ao tema. É como respirar. As substâncias inaladas são renovadamente outras.

Por outro lado, há pulsos sob medida para os que insistem em frequentar o "invisível" das palavras.

Não. Em geral, também não há critérios para escrever sobre hospitais e pássaros de sete cores.

Apenas, às vezes, é preciso mudar de cansaço.

Agora... vou para o quintal brincar com Jobim.

No cenário....

                         canários,

                                     sabiás e trinca-ferros

                                nos observam do sonho,

                                ou melhor, da árvore

                                que não cortei...

Nenhum comentário:

Postar um comentário