29 de abril de 2015

um pouco de prosa

da série
Breves Ensaios Recortados para Pulso

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Óleo s/ tela, Edouard Manet, A Execução de Maximilliano

Sem poesia hoje. Sinto distâncias mais graves do que o normal. E isso é meio mortal. Ai, perdoem a rima fácil. Perdão é difícil, eu sei, e pode ser confundido com... tolerância, por exemplo. Porém, me disseram que é preciso preservar a dignidade. (Qual? Quem define o que é digno?) Esquecer. É uma condenação também. Fazer a penitência diária do silêncio. Ser criativo na renovação da indiferença; Que voltar atrás significa não ter amor próprio.  Por que o amor tem que ser próprio? Deve ser porque o alheio é perigoso demais. Os vidros ficam assim depois da queda, vocês sabem. Facilmente são absorvidos pela carne. Se vissem o que estou vendo agora... É de cortar o coração. Um peixe está sendo “limpo” vivo. Sabe o que é ter a cabeça ceifada aos poucos, com os lábios ainda em movimento? O medo se debate no corpo, meu e dele. Os olhos se apavoram. É uma dor sem volta. Rasteira. Indigna.
Executória.
Doer é humano!

27 de abril de 2015

O Sopro de Deus



               * “Quando eu virei a esquina                
 minha casa estava no meio da rua..."  

Três da tarde.
A brisa se perde nas paredes
da tempestade.

Metade das nuvens
habita a mesma instabilidade;
adere à ira.

Deus respira.
Forte.

O ar se parte e se concentra
em cirúrgica travessia.

Imprevisível sopro.
A cidade e sua sobra
se equilibram -tentam -
entre as têmporas do temporal.

Varal de humanos
 indefesos feito panos,
com seus planos a esvoaçar
 - sem radar -

Funil de vento.
Sobre a pele de todos os relentos,
expele das árvores,  passarinhos
e suas manhãs guardadas, seus ninhos;
Expele também da terra as árvores
- À revelia?

Quem diria...

Redemoinhos tocam os nervos do solo,
sem intervalo.

Cavalos voadores e casas em coice
se cortam,
giram feito hélice;
crescem nos alicerces do medo.

Ainda é cedo
mas escurece.

Por três minutos
a eternidade oferece seu conta-gotas.

Não há tempo para prece
se o sopro tem pressa.


* depoimento de mulher atingida pelo tornado de 20.04.2015, ocorrido na cidade de Xanxerê-SC.

21 de abril de 2015

Pra não esquecer de ler...


“Aquários recortados na uniforme escuridão encerram regiões de imortalidade, mundos de luz solar constante onde não há chuva nem nuvens. Seus habitantes fazem, sem parar, evoluções cuja complexidade, por não ter nenhuma razão, parece ainda mais sublime. Exércitos azuis e prateados, mantendo uma distância perfeita apesar de serem rápidos como flecha, disparam primeiro para um lado, depois para o outro. A disciplina é perfeita, o controle, absoluto; a razão, nenhuma. A mais majestosa das evoluções humanas parece fraca  e incerta comparada com a dos peixes.”
É Virginia Woolf, em “O sol e o peixe”, ensaio que dá título à presente coletânea, na qual se reúnem nove de suas prosas mais poéticas. Nelas, Virginia contrasta a visão de um eclipse total do sol com a dos peixes num aquário de Londres; discorre sobre Montaigne e sobre a paixão da leitura; relembra, em traços delicados e comoventes, a convivência com o pai; teoriza sobre a nascente arte do cinema e sobre as relações entre a literatura e a pintura; enaltece as paradoxais vantagens de se ficar doente; celebra as belezas naturais de Sussex e as delícias urbanas de uma caminhada fortuita por Londres. Eis aqui Virginia, em toda a força poética de sua prosa.
Fonte: grupoautentica.com.br

19 de abril de 2015

breves ensaios recortados para pulso

Quarenta e dois


Fui dormir tarde ontem.
Estive pensando nesses ensaios. Já não andam mais tão breves como antes. Por vezes, parecem cães  correndo atrás do próprio rabo.

Afinal, a vida não é justa. Ora, quem de nós não sabe?!
 (risos poucos)

Vejamos esse texto, por exemplo, queria ser um poema. No entanto, as palavras e seu entorno sinalizam que ele  será prosa - no máximo poética - em tentativa constante de evolução.

Por isso ele fala demais e corrido às vezes, pois ainda não alcançou a disciplinada sutileza da concisão. Desculpem. Não é bem de concisão que quero falar. Ele confiou a mim sua vontade de ser poema e eu que não sei mais prometer...lhe avisei que tudo dependeria do mistério.

Eu não queria fugir...Não queria fugir do assunto mas antes que eu esqueça, hoje vi saíras-de-sete cores. No sonho.
Se são pássaros? Sim, são pássaros coloridos e apenas no interior do sonho foi que eu pude compreender seu linguajar...de outra ordem.
Mas aí já era cedo.

 Um pouco eles cantavam e um pouco dormiam. Além do que eu esperava. - na verdade nem esperava nada -

Fora do sonho, eu também dormia, aliás, dormir é sempre uma espécie de pedágio para o sonho. Seria eu o deles?

Bem, o que importa é que isso não quer dizer nada além do que a alma precisa saber, mas naquele momento tão real, senti uma pequena trégua de toda mágoa escoada há séculos entre os córregos do coração.

Era uma alegria mínima,  muito desacostumada de si mesma, humilde, feito quem já sabe perder,  "premiando-me" sem que eu tivesse novos "bilhetes" para conferir.

Eram arco-íris pousados pela primeira vez sobre a pausa longa, triste e fugidia de minhas quimeras.

E  eram cantos rezados de beleza, estendidos em  miligramas de  milagres, sobre a mão de minha última descrença.

Eram flores musicais inaudíveis aos jardins engaiolados desse mundo.

E voavam entre as lacunas, aquelas, que nos arredores da vigília, não fui capaz de preencher, por absoluta falta de realidade ou excesso dela.

Contado o sonho, voltemos ao assunto inicial.

E eis que hoje pela manhã perguntei  ao meu jovem cão, Jobim: "Você acha o mundo justo?" Ele, com seu abanar de rabo, me disse contente, que não.

Sem entender, faço de conta que me contento também. Porque tenho pressa. Nem sei de quê. De terminar o ensaio, talvez.

Mas...E agora?
Pra onde vamos com esse texto que queria ser um poema e não será e que está quase latindo pra mim?

 Agora escreverei que ando em hospitais azuis-longínquos. E são reais. Visto muitas roupas de paciência por aqui.

Tenho me ensinado: os pássaros não podem cantar sempre que eu quero.

Assim são as palavras se as tornamos exaustas. E se elas voltam contra a vontade,  bagunçam o tema.

Não há critérios quanto ao tema. É como respirar. As substâncias inaladas são renovadamente outras.

Por outro lado, há pulsos sob medida para os que insistem em frequentar o "invisível" das palavras.

Não. Em geral, também não há critérios para escrever sobre hospitais e pássaros de sete cores.

Apenas, às vezes, é preciso mudar de cansaço.

Agora... vou para o quintal brincar com Jobim.

No cenário....

                         canários,

                                     sabiás e trinca-ferros

                                nos observam do sonho,

                                ou melhor, da árvore

                                que não cortei...

8 de abril de 2015

prosa poética

da série
Breves ensaios recortados para pulso

Vânia Valdo - Duas Faces Felizes

TRINTA E NOVE

Sobrepujar é incrível! Ah, se pudéssemos abstrair as tempestades. Em alguns momentos seria até desnecessário padecer; suportar os antibeijos, as tocaias...E mais isso!
 É que  preciso cantar um agradecimento. Uma glória. O milagre da apoteose. Porque as crianças brincam novamente. Há sinais de restabelecimento nos brinquedos. Sorrisos invariáveis sobre a quase noite. O sofrimento agoniza em si mesmo, agora.
Às vezes a vida é um vencimento. De vencer. Acontece.

1 de abril de 2015

TREZE

da série
Breves Ensaios Recortados para Pulso

Se eu te falasse, diria das cerrações. Tão baixas se vindas de ti. Eu falaria da escassez das promessas, pequenas demais para que eu te esperasse cumpri-las. E mencionaria falsos cristais com os quais acariciaste minha língua; Reverteria teu corpo do meu, com palavras refeitas em partículas de tempo. Protegeria os fluidos de nossa culpa posterior. Se eu te falasse, seria com rastros de beijos infectos durante a ausência. Te pronunciaria - aos poucos - o enterro dos sete vampiros que amei; Da luta permanente para resistir à vontade de acordá-los. Se eu te falasse, seria depois de recolher os olhos e a medula. Seria para adiar o inferno. Proteger-te do ódio involuntário, com antecedência. Se eu te falasse, suplicaria as flores que desisti no solo de tuas atitudes. Inférteis. Se eu te falasse, diria das cerrações. Tão chuvas em mim, se vindas de ti. Se eu te falasse, seria com tempestades. Tão velhas que já não conseguiriam fecundar o sol. Depois,  te professaria uns futuros que seriam sonháveis, não fossem incapazes de ti. Se eu te falasse, não bastaria.