4 de março de 2015

prosa poética

Breves Ensaios Recortados para Pulso

NOVE

Há noites em que é melhor não sair de casa. Noites tão banais quanto esta frase. Mas a esperança engasga em hipóteses de que deve haver um rastro de ilusão indolor lá fora. Digamos que houvesse. Eu não estaria nesse exato momento preparando a devolução. Embrulho as poucas coisas, os pequenos acontecimentos que Te pedi, uns cinco ou seis no máximo, em algodão desistido de branco. Depois envolvo-os em papéis redobrados de  cansaço e com delicadeza – a de sempre – amarro barbantes por cima dos jornais envelhecidos de fé mas nunca de utilidades. Tudo o que Te devolvo está confuso do jeito que Me entregaste. Repito o procedimento para cada uma das tréguas que supliquei  sem descuidar das promessas. Inverto as promessas e não quero que penses em vingança de minha parte. Afinal, Tu não fizeste nada.  Daqui há alguns minutos vou me livrar disso, dessas coisas das quais as pessoas parecem precisar para funcionamento do ser feliz. Acontece que a última noite me pensou em realidade. E  ter as mãos vazias é a minha novíssima condição. Na verdade, a única. Porque descobri que é dentro do nada que dorme a euforia acima do não e do sim. Do nunca  e do sempre. Do que é amor e do que é verdade.  Devolver é difícil. Eu devolvo.



Adicionar "Murnau com Arco-Íris" - Wassily Kandinsky
Pintor expressionista e abstrato russo (1866-1944)

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