27 de março de 2015

um pouco de prosa...

da série
Breves Ensaios Recortados para Pulso

ONZE

Edvard Munch - O Grito


Hoje, febre. Não retirei as amídalas por pura falta de coragem. Tenho imunidade baixa às tentações do orgulho. Me fazem mal. Desconhecem que tenho águas fugidias sob os escombros  dos olhos; muitos metais naufragados: remorsos de ser mar em meio a arquipélagos distraídos  às tormentas que enfrento, sem aprender como avisar. Antes. Não sou adepta dos finais revestidos pela fina linha da precocidade.  Alguém sempre se fere de antecipação. Contudo, esqueço bem. Me disseram que o impossível passa. Não sem eternidade. Conheci uns e no entanto,  isso é íntimo demais para ser narrado como ficção. Se é real não sei. Porém, os cortes estão abertos. Isso é o que enxergo através da membrana intermitente  na retina esquerda. Sim, tenho a garganta inflamada mas não estou rouca. Estou completando a quietude. Me acostumei a ver. Rastejado, talvez. Porque há um Ser  imenso para o qual não há adjetivos que bastem, por ser tão imenso mesmo. Eu soletro a sonda em sua mão. Eu balbucio-a. É estreita o suficiente para as incisões que não são largas. Mas profundas. Então, Ele a insere lentamente...todos os dias,  de modo que os cortes não fechem e assim  não deixem de fornecer dor: esse sentimento útil para que os humanos possam saber de sua abissal fragilidade. Falar de Deus é fácil. É como falar de cicatrizes que não podem.

24 de março de 2015

A Janela


Uma janela cega

me abre
    aos poucos,
           me olha,
                         me segue.

Convida-me...
 devagar

      ao milagre
          da entrega.

Migra-me
até alguma pequena alegria
qualquer.

Pode ser a chuva
que lava da casa a ansiedade.

Pode ser uma aldeia
com folhas sagradas,
dessas que depuram a febre.

Pode ser um varal mesmo,
de roupas imitando pipas.

Ou podem ser tulipas brancas,
múltiplas de perdão,

enquanto pardais adornam
o corpo da janela
até a cama.

   Até a calma...



23 de março de 2015

prosa poética

da série
Breves Ensaios Recortados para Pulso

Dezessete
Visões. Tu. Montanha imaginária. Logo superfície. Lago evaporado nos pulmões. Pânico de vulcões. Rima desprotegida. Planície. Delicadeza em trégua. Armazenada. Chega. A hora insaciável do adjetivo. Central. Azul escurecendo. Dadaísmo vivo com recortes de pulsos. Falsos os teus. Em meus. Sinais. Nuvem terminal. Urso polar. Carícias de granizo. Não. Ferro. Ferrugem convertida em vidro. Agora sal. Lavando os pés após. Pregos. Apegos. Silêncio em construção. Tesouras de dormir. Deus. Por que? Parque de aversões. Anestesia leucêmica. Karma. Amor clichê. Alma transversa. Flauta. Falta. Peixe na pedra dolorida. Ex-camas. Letras carnívoras. Desejo em cânfora. Sonhos empalhados. Nuncas de metal. Animal de desistir. Eu. Violinos de estimação. Vi.  Visões. Antes dos olhos.

22 de março de 2015

poema amanhecido



A fala afia a carne.
Avulsa veias de arame
no cerne da poesia.

A língua se desfia no germe
da palavra faca. Falta.
Escava teias de lume
no gume  amanhecido
do poema.

O poema atrofia lâminas
no osso mínimo
da alma:
celeuma de sonhos 
decompostos.

O verbo dos opostos
desafia a pedra
no alpendre esconso
dos desejos. 
Apazigua o nada.

18 de março de 2015

um pouco de prosa

da série
Breves Ensaios Recortados para Pulso

OITO

Léo Brito - Dança na Madrugada


Ensaio sintomas de anestesia. Mais no espectro do que no resto. Manifesto-me com palavras amenizadas de vísceras. Um pouco quero ser mais fácil,  na medida em que me desprendo dos limbos de certos terrenos, enxertados de carne e gesso. Um pouco contraceno com as mãos, na tentativa de retroceder a todas as vezes que sem querer, parti. Despeço-me ao contrário, já que os itinerários, de repente, perderam o senso. Estou saindo lentamente do útero do tempo. Às vezes volto porque meus desperdícios adormecem em relógios de vento. Estou saindo em plena consciência de ser. Acumulo mais que uma dimensão no centro do peito mas não sei explicar. Improviso silêncios exteriores para poder dormir, como se não fosse inútil apagar a luz depois do cigarro. Minimamente posso ver além da que me perdeu: esta outra de mim designada à contraface do espelho. Calculo a profundidade do retorno. Será difícil não demorar durante a dor. Edifico túneis por dentro da música provisória que me inventaram, quando minha última fuga era esquecê-la. De ouvido.

15 de março de 2015

um pouco de prosa...

da série
Breves Ensaios  Recortados para Pulso

                                          

VINTE

“...que seus licores filtrem-se em mim,
nessa cápsula de vidro,
entorpecendo e apaziguando.
Mas sem cor. Sem cor alguma.”
Sylvia Plath

Vazios. Prefiro os de antes.Uns arrozais plantados nos olhos da infância. Viagens. Gostava dos asfaltos de domingo. E uma calma implantada por Deus, quando me cuidava. Agora,  azuis devastados. Estradas gerais, apenas. Brancos incontestáveis. Aventais de chuva. Bolinhos de avó.Ontem. Agora sal. Superfície de areia. Extremidades no caos. Menos. Cemitério em mim. Águas extraviadas. Brasas sobre a pele. Os dentes esforçados no verbo. Sorriso dentro. Uns dedos inventados em anéis de cortiça. Calores de isopor. Baixo ponto de ebulição. Da lágrima.
Pormenores mortais.
O de sempre.

9 de março de 2015

A mulher de que sou feita

Obra de Di Cavalcanti
A mulher de que sou feita
não me falta;
ajeita aos percursos do corpo
 discursos em harpa,
 para as farpas sobrevindas no tempo.

Um campo repartido de música,
com flores carpidas dentro,
a concentra.

Nos epicentros
a mulher em que me salto
ainda reage... range;
Refaz-se no manco dos tamancos.
Abrange-se da história!

Já não brinca nos brincos perdidos
das falanges.
E quase tudo o que lhe fingem
 não mais a atinge.

A mulher que de mil longes
me euforria, chama-me;

Toma chope, choque, chute;
 tem chistes, encharpe e chapéu.

Insiste em desbravar o céu do céu.
- depois consegue -
É linchada, às vezes dentro,
às vezes fora
 do véu.

A mulher que em mim se assenhora
devora o muro dos murmúrios.
Melhora-se em mar, alma e cerne.

Já não esculpe o amor
 no mármore dos mitos,
os quais talhando
desabito.

A mulher em que me hospedo
aprendeu a domar metade das pedras:
emparedou-as nos preâmbulos
do rio.
Não lembra mais em que rio.

Desafio de não saber o que não serve,
na luz aberta dos critérios,
mais amplos, agora.

A mulher em que me exemplo
não se isenta daquela que não fui,
mas flui, atenta,
no tinto vinho dos quarenta.

Experimenta a vida e já não engole
golpes em goles de paciência.

Passeia nos galopes velozes da essência
antes da ausência.

7 de março de 2015

prosa poética

Breves Ensaios Recortados para Pulso
SETE

Regressei de escolhas. Porque eu havia desacreditado demais no amor para voltar atrás. E tive que ferir os lábios ajustando beijos a bocas que não me cabiam. Mas agora...É da transição que estou falando. De dentro da transição para a qual fui chamada ainda que agora. É do arrependimento brotado em cada estação que nasce a muda. Meus anticorpos têm funcionado bem. Na medida em que combatem o vazamento das veias que violei, também bordam em alto relevo sobre a carne, possibilidades. Por outro lado, se é dever cumprir os impossíveis, também não há escapatória quando o seu avesso resolve atravessar certas portas fechadas por precaução do abandono. Já estou com as mãos agarradas às margens do poço. Mas os pés ainda estão suspensos. Há meses trabalho na construção do impulso. Estou olhando para o salto. É para isso que recuperei o movimento dos músculos. É claro que percebo a cilada, mas dissipo-a e assim...humildemente mordo a impossibilidade, quero dizer, a isca. Para saciar o corpo da entrega da entrega da entrega. Posto que amor é coisa para peixes, melhor mudar de ensaio.
Composição com Peixes- Francisco Brennand

4 de março de 2015

prosa poética

Breves Ensaios Recortados para Pulso

NOVE

Há noites em que é melhor não sair de casa. Noites tão banais quanto esta frase. Mas a esperança engasga em hipóteses de que deve haver um rastro de ilusão indolor lá fora. Digamos que houvesse. Eu não estaria nesse exato momento preparando a devolução. Embrulho as poucas coisas, os pequenos acontecimentos que Te pedi, uns cinco ou seis no máximo, em algodão desistido de branco. Depois envolvo-os em papéis redobrados de  cansaço e com delicadeza – a de sempre – amarro barbantes por cima dos jornais envelhecidos de fé mas nunca de utilidades. Tudo o que Te devolvo está confuso do jeito que Me entregaste. Repito o procedimento para cada uma das tréguas que supliquei  sem descuidar das promessas. Inverto as promessas e não quero que penses em vingança de minha parte. Afinal, Tu não fizeste nada.  Daqui há alguns minutos vou me livrar disso, dessas coisas das quais as pessoas parecem precisar para funcionamento do ser feliz. Acontece que a última noite me pensou em realidade. E  ter as mãos vazias é a minha novíssima condição. Na verdade, a única. Porque descobri que é dentro do nada que dorme a euforia acima do não e do sim. Do nunca  e do sempre. Do que é amor e do que é verdade.  Devolver é difícil. Eu devolvo.



Adicionar "Murnau com Arco-Íris" - Wassily Kandinsky
Pintor expressionista e abstrato russo (1866-1944)

3 de março de 2015

prosa poética...

da série
Breves Ensaios Recortados para Pulso
VINTE E TRÊS

Salivar de sol cada manhã mal desenhada, quando bebo uns cafés semelhantes à vida: insolúveis. Deve haver um reflexo de verdade em nada disso. Mas perguntar é insone demais para sorver o risco de acordar por dentro. Faz águas decretei silêncio aos invisíveis que me pronunciam em amor. É que as palavras ficam rasas em xícaras de carne.
E é de porcelana esquecer.
Adicionar legenda

Breves Ensaios Recortados para Pulso

QUATRO

Segunda-feira.
 Vejo o sol nascer pelo espelho retrovisor da alma. À frente, corredores imensos, brancos de procura; Fechados em seus finais mas os olhos inventam horizontes  para contar, cortando de medo,  sempre dialético, essa manhã geométrica.
Meus dois lados acenam-se contra a despedida: dois gerúndios confundidos sob a neblina dessa espécie de sono ao quadrado.
 É preciso levantar para limpar a dor de hoje. É preciso? Sim. Engraxar os sapatos novos - ainda que novos - aos velhos caminhos. Sacudir as retinas para que o cotidiano remova mais uma vez, a poeira do indesejado: ceder o corpo ao lado de fora das paredes.  Exercitar os músculos dessa viagem, para manter em forma o tédio.
Fazer o desjejum. Sair. Arriscar-se.
Correr de encontro às iscas de mais esse dia, que Deus já saiu para pescar.
Mark Rothko, 1951

1 de março de 2015

um pouco de prosa...

da série
Breves Ensaios Recortados para Pulso

TRÊS

Ai de mim que aspiro. Ai de mim que espero a coagulação do azul sobre o horizonte incinerado para a purificação das expectativas. Porque concluso, o chão exerce sobre os que crêem, um efeito de ímã despertador. Porque de metal, as raízes do sol se movem lentamente na membrana dos glóbulos, como se fosse hora de amanhecer. Se não lembro do relógio é porque não faz parte do meu pulso. Se não lembro do relógio é para permanecer mais tempo no outro lado de mim: aquele menos ponteiro. Ah sim, sim. Já estou indo para a reunião. Reunir é um ato provisório demais para os dias que não me preparei viver. Reunir é aleijar a poesia que me cabe.Quando havia tempo em meu calcanhar, costumava sair lá fora, apontar a face para o céu. Custa tempo olhar o céu. Custa chão tecer o não. Agora sim.
Mark Rothko

um pouco de prosa...

Breves Ensaios Recortados para Pulso

                                           DOIS

Dentro de uns ontens, vertigens de anjos sobre a pele do asfalto. Nuvens de cobalto arrastavam seis olhos contra o tempo. Era deus. Predestinando-nos ao invisível, provando-nos em cegueira, furtando pedaços do percurso. Era deus abrindo uma fresta do infinito, permitindo que espiássemos o corpo do nada em instantes fugidios. E a paisagem varava as retinas alinhando desvios em dimensões idênticas. As almas já sem placas, sinalizavam energias longínquas deste mundo, desprotegidas de matéria: livres dos cinco sentidos.
Éramos quinta-feira e parecíamos a eternidade. Rindo.
Mark Rothko