28 de fevereiro de 2015

um pouco de prosa...


Breves Ensaios Recortados para Pulso

UM

Remendo a arte descosturada pela farpa de meu calendário atual. Estou por um fio, suspensa no descontentamento maciço, dobrado a ferro sobre a coluna das fés, essas que costumo armazenar para os dias e noites vindouros. É assim que alinhavo o estômago desta invernada por onde me esqueço de nascer. É assim que domestico a contragosto a úlcera da espera. 
Tomo cataflans de seis em seis horas mas às vezes também esqueço. O tempo não regenera a covardia de certas escolhas. 
Cancelo compromissos que a vida intenta, efetuando bolhas na sola dos sonhos. Sovo de fuga as amplitudes deixadas de lado, para dedicar-me à ignorância dos que resolveram me acariciar de inutilidades.
 Não faço dívidas para contradizer a Deus. Sonego afetos. Atraso-me aos amigos feito alguém que precisa chegar mas enfrenta engarrafamentos incuráveis. Tudo transita.Congestionada a alma, os sinais estão parcialmente fechados, intermitentes feito um pulso recortado em três. Tempos.
Mark Rothko


14 de fevereiro de 2015

Arauto

Evoluções - Ariane Daniela Cole -
Aquarela sobre papel
O tempo guarda todos os presentes
para futuros menos
extintos.

Aprendizes de ilhas ,
as trilhas das próximas manhãs
desenham rotas nada semelhantes
às de antes,

enquanto diamantes aborrecidos
 dormem no lado mais fundo do rio.

Nada se quer absoluto.
O luto nem sempre é
um atributo da ausência.



Observatório da Manhã - no campo -



Respirar.
O ar veleja nos pulmões
dois barcos mínimos.

Sublime manhã
 - agasalhada ainda -
entre os braços da neblina.

Ela sabe nublar-se
mas só até o que ilumina.

Cavalos com sol nascendo
nos olhos.
Os bichos não imaginam o dia.
Aceitam-no
como se fosse o princípio inteiro
da beleza.

Um cheiro de café forte
foge da mesa.
Passeia aqui fora.
Purifica o ato do poema.

Tudo tão bonito se
visto de dentro.

O sofrimento é o pão exato
de reinventar-se.
E refazer o nome do próprio nome
com a fome de merecê-lo.

Deixar o celeiro da culpa.
Desocupar-se das desculpas,
arrancar-se da caudalosa dor,
com a alma suspensa no deserto,
esse oásis desabituado.

Vista da Água  David Burliuk - 1882-1967