26 de dezembro de 2015

A ponte pênsil do silêncio



Seguro a ponte pênsil do silêncio para escrever sobre  precipícios cegos, recém-chegados, com vista para a sorte. Singro-me e eles me refazem partir do ponto que mais nos atinge em queda livre: a invalidez das escolhas brotadas no leito crescente dos massacres. Alguns se dizem sacros, outros lacustres, outros embustes...todos sem nenhum acréscimo de humanidade. Rompem o lacre mal feito no parapeito das cidades e o que dentro delas nos transtorna. Escrevo sob a plataforma de uma fraqueza nascente. Mas que não se exime. Sob o crivo dos anti-alívios, dos uivos convertidos em raiva de tristeza. Saraiva interior. Sem  fortaleza estou perdendo o ritmo. Ouço respiros no rio e uns tiros longínquos num fado fixo advindo das derivas, lá onde Deus quase não salva: saliva. Soluça. Está bravo? Não sei... Não sei se devo escrever assim, miúdo, entre o medo e o mundo. Escudo e alvo. Selva. Não sei se devo levar-me em equilíbrio nesses vocábulos que não se acostumam com o desprezo, com o prejuízo súbito de ausências não prometidas. Então adjetivo. Adjetivo e desabrigo-me no transbordo das surpresas. Escrevo. Escavo meu coração feito o tigre a sua presa. Rezo. Mas tanto, tanto, que tento lavar a correnteza. Esfrego-a nos olhos feito quem esfrega a roupa na pedra.  Deito a cabeça sobre a mesa.  Dobro os braços, redobro a rima, mas é difícil porque preciso perfurar a escassez do frágil solo das urgências. É tarde. Tem rumo de naufrágio essa terra. Terror sem nome consentido. E o dia era de uma cor mascava. Sólida. Os nervos d'água mantidos, rijos, enquanto se alavam - apáticos -  os peixes e outros animais menos aquáticos. Matar um rio e seus filhos requer derrames pelo caminho e andaimes de arames na alma em farpa. Na alma em falta. Sozinham.


25 de dezembro de 2015

Bom natal...

Um bom natal aos amigos e leitores queridos...

Que o mundo seja melhor para todas as pessoas e também para os animais...para a natureza. Porque é urgente.


Que horas são?



Já vai anoitecer. Dormem os despertadores. Concentram-se as casas. As cozinhas. As coisas em seus lados de dentro se arrumam. Cheiro de Chá. De coentro. Faz bem para úlceras e dúvidas. Acelera o lirismo. Nesses meandros. Florescem quadros. Escudos. As tábuas dos barcos. O ar. Há um não-lugar fundamental para tudo. Eu sei. Existirá espera maior que a fuga? As possibilidades arrancadas de seus eixos, feito peixes, nem sempre se deixam abater. Algumas voltam sozinhas. Pulam para dentro ou para fora dos agoras. Revogam-se de fé até o afã de um novo curso. É isso! Isto é uma defesa sem época. De defeso. Preciso retirar a tensão destas palavras. Preciso tentar retorná-las até o seu estado inicial de correnteza. Fazer a gentileza do silêncio. O silêncio não é mais do que o corpo ainda não sabe. É um discurso. Ouço meu coração bater. E as portas. E os sustos. Motor de pulso. Fluido. Tenaz. O sangue faz um ruído de rio atrás do ouvido. Desce, pescoço adentro. Sobe. Ondula levemente a arte nas artérias. Engulo a saliva breve. Repetitiva. E o rio segue pela máquina jugular de que sou feita...Ou desfeita? Ainda estou aqui. - você está -  Existir é um tom. O tempo me alega - sem erre - e estreita. Nada é trágico. Sou apenas mais um relógio humano. De cordas e vestígios. Emano. Vogais. Vocalizo a água que esvazia dos dias.  Atravesso a ponte entre os ponteiros. Pondero a válvula mitral involuntária que me atreve. Abrevio o óbvio pelo menos tento. Sem vírgula. Fôlego pouco. Escrevo para aliviar a garganta no vento. Pra perguntar que horas são. Que horas sou...por exemplo.

Retrospectiva poesia.net 2015

Obrigada pela acolhida, poesia.net...

http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet346.htm

9 de dezembro de 2015

A antinoite ou o avesso do blecaute



A noite havia acabado de desistir de si mesma. Não escureceu, por insistência atenciosa do não. Guardou as estrelas e todos os seus aviamentos de céu. E não foi. E soube bem como não ser. E não sendo dormiu. Cedo. E. Não queria mais a sede efêmera no centro da misericórdia aos prantos. Aos humanos pastos. Aos restos tristes nos matadouros, antes de amanhecer. São muitos aos. Mas preciso continuar...Então, ela emprestava a distância em pedaços até se romperem os lapsos, as cápsulas, as penínsulas danificadas no peito,  os discursos e os cadarços, de fato. Nunca os laços. Tinha sapatos exaustos, inexatos  para os tablados pregados nos dois lados do fim. Do mundo. Porque o fim é assim. Duplo. Relâmpago amplo nos olhos dos postes com lâmpadas que acendem, mesmo que a noite não venha.  Foi um dia bonito. Automático de viver. Apesar da dúvida abreviar a súplica, pisei com desconfiança sobre o que não mais lembrava. O esquecimento estava firme mas eu queria ter certeza da gravidade das camélias, dos dentes-de-leão, das flores de algodão maciço nos vasos de aço. Das águas agudas dentro do sumiço. Alguns bichos noturnos não passeavam, assim como eu. Foram nove advérbios de negação até aqui. Fossem dez, fariam jus ao som de dizer da luz, que está cansada. Não?
- Seria a vez do sim...

25 de novembro de 2015

Antes de Amanhecer

Nu Descendo a Escada - Marcel Duchamp


Amortece-me a noite feito um azulado cavalo negro. Magro. Não, ele não é alado. Agrego ciclos infinitos no que não me vejo. Protejo potros indefesos nas guarnições da chuva, só que não quero falar de chuva. Mais. É cansativo. Preciso estancar as pancadas do pensamento, em terrenos menos movediços. Disso depende isso. Alagar. Não. Legar. Não. Largar. Também não. Ligar. Não encontrei lugar nem palavras que soubessem salvar a altura do invisível que me circunda de tudo em comoção. Foi então que construí essas palavras: párpio, flanura e auriência. Para designar a essência da mais neutra solidão. Inédita, como se fosse de outra desordem. As novidades estão lúcidas...comprimidas em comprimidos de aceitar. Nada mais tem pressa desde que absolvi o futuro. Há tonturas expressas aqui. Sento-me numa escada que nunca vi antes. Escuto para baixo. Deixo os escudos de lado na escala das fúrias. São árias antigas, cantigas contidas nos restauros da razão. Centauros dormem sobre o colo das esperas. Colocam-me em estado de reintegração no mundo. Às vezes choram um pouco de lutar porque têm as articulações machucadas contra o fracasso. O fracasso não erra mais de uma vez.

23 de outubro de 2015

Um pouco de prosa...



da série
Breves Ensaios Recortado para Pulso

49

Sinto sede. Entrarei logo cedo no  assunto pois preciso comprar pão. Que um violoncelo rubro reabrisse meu sonho no  estranho da noite era o que eu queria. Ontem. Mas não.  Estou indo à padaria, agora,  enquanto penso enlaçada ao sono que sobrou da vigília nada musical. Digo que a noite me acordoou por inteiro. Não adormeci para que a lucidez me guardasse um pouco mais. Porém,  não adiantou. Tampouco adiantaria chorar. E não é pra menos!  Tenho  braços pequenos pra sonhar com violoncelos. Por isso, poupo meus ombros e pernas, a fim de retocar as ilusões dos escombros para os quais fui cifrada. - Não era minha essa partitura. -  Vou dizer em miniatura, que talvez doam os pulmões da mudez, quando brotarem as flores aéreas e, desatados,  voem em forma de borboletas iniciais. Sem mais absurdos. Feito dois arbustos, bifurquem-se nos medos, nos meados do começo. E inspirem o grito mais agudo, por entre os tubos da falta, da flauta de tudo.  Talvez esteja lindo o dia, mesmo com seus alvos consumados. E os declives sem alívios. E as claves. Talvez eu tenha um barco azul e branco e águas inéditas embalem-me num silêncio definitivo. Talvez eu alcance o outro lado do talvez e isso não seja uma prosa mas  uma represa às pressas. Antes da hora.  Foi assim que amanheci. Por absoluta falta de audição: eu não soube ouvir mais do que pude. Quero pães doces.
Umas xícaras de açude.

6 de outubro de 2015

Gratidão...

Obrigada, poesia.net, pela matéria, pelo carinho e pela consideração. Abraço imenso,  querido Carlos Machado!

http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet340.htm

29 de setembro de 2015

A chuva sabe o que faz



Não sei se tudo vai ficar bem. Tem um atravessado de nuvens lá fora. Cores e formas que falam. Desenhos  e senhas suspensos no firmamento. Não mais tão firme. Portais. Portáteis. Portos encobertos no mar aéreo. Ao meu lado - em terra -  os pássaros se alimentam de farelo de milho, agora molhado pela chuva, sobre a mesa do quintal. Alguns gostam de frutas. Eles parecem bem, mas são mais agitados do que eram antigamente. E eles sempre conversam muito nessa hora. Qual o assunto? Há inúmeras hipóteses e todas são capazes de captar algum grão de alegria. São seis e vinte e dois. Às vezes não durmo, de medo,  mas não sei de quê. Depois, fico cansada e o dia se mostra interminável. A respiração das coisas  aumenta muito ao redor, conforme dilata-se o cotidiano, com suas atribuições de fazer funcionar o coração metálico do mundo. A respiração em si mesma pede para respirar, quando é assim. Porque há uma discreta asfixia na pressa sem comoção. Estamos correndo para onde? Percebo uma falta de inteireza nos relógios quando tudo está por se aguardar. E tudo o que se aguarda já está. Sempre esteve. E é sem volta. Sinto as belezas se desprenderem dos afetos, feito essas gotas que saltam do telhado. Na verdade parecem se jogar de um incêndio. Telhados são proteções, me disse uma especialista em almas, ao me pedir que desenhasse uma casa. Só porque fiz todas as telhas perguntou-me ela: "por que tantas telhas?". Disse-lhe que eram os alicerces, só que do lado contrário da casa. Ela sorriu com delicadas certezas em seu silêncio. Era silêncio bom, porém, não caberia nesse momento explicar uma por uma as goteiras dos sentidos, caso eu soubesse. Talvez uma espécie de pânico se estenda - hoje um pouco mais -, por causa dos vidros fechados aqui; das vidas e das dúvidas em aberto. No entanto, é um pânico quieto. Mais nos olhos do que no resto. É assim... para dentro, lá onde se misturam os mistérios. Não sei se tudo vai ficar bem. Os passarinhos tomam banho no pote de guardar chuva. Eles pulam com um ar feliz. A chuva sabe o que faz.

15 de setembro de 2015

Breves Ensaios Recortados para Pulso



SEIS

Abrevio o ritmo na conjunção dos fios. Agulho arrependidas aberturas na carne anterior a esta. Tenho as pálpebras repuxadas, nervosas de lembrar. Quando ainda era morte desistir do tempo, eu frequentava com menos cuidado as facas. Eu duvidava de Deus  com mais força e menos tarde. Hoje, sou tão domesticada a esperas, porque comprimo a morte em pequenos frascos transparentes. Assim, posso vê-la como se vê um animal mergulhado em formol. Ou nas cinzas de si mesmo. Assim, posso entendê-la pior. Tenho tanta tristeza da falta de escolha dos animais, sobretudo dos anfíbios, que conservam a pele com eterno rancor. Um dia, na saída dos fundos de um prédio, vi uns três ou quatro humanos capturarem um sapo. Depois, cuidadosamente, enquanto riam feio,  deram-lhe um banho de gasolina e riscaram um palito de fósforo, lançando-o sobre a falta de escolha. Queriam ver o tamanho do salto. O que era o tempo para aquele anfíbio? Como vingar sua agonia gerada pelas mãos de minha própria espécie? Imprópria. Não sei se o grito foi mais alto ou o salto. Eu tive que seguir. Aperto meus pontos enquanto penso no que penso. Então escrevo para alinhavar um pouco mais o pulso esquerdo. Enquanto isso, as horas vão  cicatrizando o anfíbio que há em mim. Antes que seja morte. Morte demais.

11 de setembro de 2015

Mínimos Orátórios d´Água para Guardar Hojes

III - NOITE



É quase ontem
em alto mar.

Do altar
escuto o escurecer

na escolta do sono.

Sereno em volta.
Escunas e sinos

Meninos longínquos
ensinam-me
- num choro secreto -
sobre o chão dos olhos
submersos
no rosto.

E me decretam
ser humano

 nas falhas.

Resgatam-me do rito
aflito
dos afetos.

Há sempre uma tontura
no caminho,

quanto menos marinho.

A mente reage em giro,
agora.

- Qual a parte mais segura
dos redemoinhos? -

Rodopio-me de dúvidas
para baixo da ausência.

A fim de que os eixos

dos seixos
me puxem a salvo

até o trapiche ou navio
mais próximo.

Desconfio da chance,
pela última vez.
 
Nessa escassez de alívio
me dilúvio.

Sou minha própria
âncora.

Elevadiça.
Manca.

Avanço-me
na alavanca dos vínculos.

Clavícula exposta
desde o labirinto.

Retorno à tona.

Em oratório secular
respiro.

Mantras escorrem pela boca
da noite
afora.

Migram a sede
até a outra margem

das demoras.

(De morar)

5 de setembro de 2015

Mais um pouco de prosa...

Breves Ensaios Recortados para Pulso



DOZE

Estou anoitecendo. Em cada cão que encontro morto às margens do asfalto pelas manhãs vestidas de novas. Nem vou falar dos cavalos magros, feridos diariamente no corpo das carroças, com seus ossos saltados de crueldade e olhos vendados pela metade. Atropelo-me de modernidade mas não sei. Não sei como organizar essas dores urbanas dentro do coração ainda humano. Penso nos cães e suas famílias. Quantos cães sucumbem solteiros? E quantos são esmagados ainda na infância pelas circunstâncias da pressa? Sim, a covardia tem pressa! Vias de expressas selvagerias. Vazias de qualquer possibilidade de se colocar no lugar do outro. É que os homens resolveram asfaltar as ruas e os animais. Então decidi comparar. Comparo os homens ao Deus: imagem e semelhança? Já os cães assemelho-os aos homens, salvaguardando a superioridade dos cães, é claro. A questão é: quem está no comando?  Eu vi um cão mas não queria. Não queria vê-lo com a arcada dentária fora da boca. Os olhos supostamente abertos. Indefesos. Nos humanos, por vezes, vejo mandíbulas e atitudes  infectas de sentimentos multidores, pavimentados de estupidez, com seus rostos altivos. Primitivos vivendo em tempo diverso. Contorço-me de tanto pensar, porque não sei despedir-me assim, demais. E depois, eu tenho muito medo de tudo que não seja cão.  Então, estou anoitecendo cedo e não é fácil alterar a morte desses cães em mim. E há os felinos também. E os gambás e os tamanduás e os lagartos e tantos outros que precisam atravessar, vez ou outra, nessa vida. E há os mistérios e as escolhas que eles não têm. Já vi humanos desviarem automóveis  frente a animais inesperados, mas também já me deparei com gente que riu e acelerou ainda mais o motor da brutalidade que, cada vez mais,  vai de encontro às pernas - já bambas - de minha fé.  Isso sem falar dos cavalos magros, feridos diariamente no corpo das carroças, com ossos saltados de crueldade e seus olhos vendados pela metade...Um sofredouro a céu aberto.

Breves Ensaios Recortados para Pulso



50
(o último da série )

É preciso entrelinhas nas ilhas.
Foram tantos fios paridos das agulhas... Com eles restaurei espaços e pulsos, que mais parecem raízes azuis. Alinhei cicatrizes em ponto cruz: caligrafias desafiadas no lado mais alto dos relevos. Escrevo solto para arriscar-me um pouco dentro da possibilidade dos abrigos. Feito alguém que abre um figo em plena fuga dos afagos, distraída, me fecho,  porque costumo ficar frágil na cavidade dos naufrágios. Mas não digo. Salvei dois afogados no repuxo. Só. Sobrevivi ao perigo daquele dia em que cortei meus pés nas conchas, e fiz um pacto com o mar mais próximo de tudo o que não se deve esquecer. Depois, conheci pescadores antigos que não sabiam nadar, mas na proa da canoa fincavam-se em equilíbrio. Eram especialistas em ficar de pé. Colecionavam candelabros e lamparinas nos ranchos de lapidar tempo. Temperavam tilápias  nas salinas da tarde e as assavam nos ventos da noite, nem sempre quente. Anciãos que  eram, coziam pirão desde os sonhos. Castanhos medos advinham das espinhas atravessadas em seus olhos. Quase sempre tinham dor nas respostas. Cegueira pronta sobre o dissabor. Das postas. Custa-me descobrir seu rastro, agora, no rosto fixo, enfaixado, da memória. Eu que nem pude salvar os peixes. Estou dentro do mar. Ainda. Há uma irritação solar a latejar nos poros. Não!  Não é o sol. São as algas. Quero dizer águas-vivas. Elas são tão imprevisíveis quanto raios. Saio devagar. Estou voltando. Ao meio. Antes, semeio barcos na correnteza. Devem nascer mais fortes, dessa vez. Talvez, haja uma lavoura de navios. De novo.

19 de agosto de 2015

Mínimos Oratórios d'Água para Guardar Hojes



II - TARDE

Um rosário de chuva
se move.

Envolve-me
na verve parda
da tarde,

como se não fosse
anoitecer.
Logo.

Rogo-me
num recital celeste,
 
engasgo em mim o antigo lago,
a lágrima álacre.

Grisalha. Ancestre.

Esgrima pluvial:

uns acenos feito espadas
d'água,
cruzam-se no vento
da enxurrada
monumental.

Molham tudo
o que não fica
no lado de fora

do  adeus.

Liquificam a fala
sob as capelas da pele

reabertas nas contas rasas
das costelas.

E inauguram
o recomeço
da promessa.

Sem que eu impeça.

Teço-me terço
na quinta essência
dos mistérios.

Já é terça-feira na ferida.

Intimidam-me ainda
as retinas da terra,
olhando-me de dentro
do rio,

à vespertina maneira
das esperas,

se os remos
são vésperas.

Trago as vértebras rezadas
nas roseiras do corpo,

esse campo de estancar améns.

7 de agosto de 2015

Breves Ensaios Recortados para Pulso

Quarenta e oito




Lembro-me bem do que eu disse. Que era pra abrir uma fenda a menos nos terrenos inexoráveis das planícies da razão e outras emoções complementares. Era perto o porto, portanto, acessível partir. Mas não foi assim. Foi pior. Pincéis e mísseis atravessaram o corpo do sonho nessa mesmice nascida dos cansaços. Sem a elegância  do esquecimento, é claro.  Mais isso agora!  Esses navios deteriorados de esperar. Estão por toda parte. Não sei o que faço. Não será diferente a lente ofegante da memória.  Esse elefante de marfim sobre a estante dos alvos. Esses livros...e esse leão que me olha do fundo dos ossos. Não sei se posso reparar sua dor ao mundo. No mundo. Ferida exposta. Gasta. Mais esse agosto, agora! O rosto inexistente desponta na pintura. Me espia, perfura o gesto, o gosto, o resto encoberto da candura.  Quem diria adeus a um tempo em plena hora segura?  Limpo os dentes da distância porque talvez tenha que sorrir de novo e isso é  incomum, dependendo do canto. Implanto outras mastigações na saliva nervosa, para salvação das expectativas.  Costuro vigílias nas gengivas pensativas dos projetos. Protejo-me do beijo alojado nas bagagens perdidas da coragem. Por que? Porque é mais inútil. Manter o útero aberto no lado mais forte do mistério das coisas nunca absolutas. Lembro-me muito bem do que eu disse. Que o desperdício desistisse da eternidade. Por pura precaução do sal. Da saudade.

5 de agosto de 2015

Hora do Almoço



Adio os cortes
na arte.

Abato-me
se o dia se parte
ao meio.

Saio da fome
à procura 

de um novo
ensaio

para a vida.

Desmaio
 até nutrir-me
no próprio sopro 
do trabalho.

Exaurida.

Mas há uma fratura,
ou talho
 na fartura da fruteira
 sobre a mesa,

inteira;

Uma tristeza 
inesperada
nos poros,

nas peras,

e que me brota assim...
interna, 
aberta na paciência
quase bruta,

às vesperas
da salada

calada
de fruta.

15 de julho de 2015

Um pouco de prosa poética...

Breves Ensaios Recortados para Pulso



47

Não é sempre que posso estar aqui. Por isso estoco-me de silêncio para ficar na parte de dentro das manhãs. Porque eu procuro. Procuro alcançar  melhor a superfície contrária dos barulhos, uma vez que o espelho treina em mim olhos já bem desistidos de gritar. Procuro a pausa do que não ouso, mas ouço de involuntária nudez o coração aos sopros. Quase sempre sofro de entressafras no sorriso difícil de tudo. E mudo. Estudo os sensores das palavras enquanto isso, para ajudar na soltura do penúltimo precipício ou quem sabe, para a escalada das  submersas camadas do que está apto a não ser. Calo-me nas calamidades mas não posso esquecer que há os possíveis timbres da beleza. E continuo. Sem desmerecer. Remover esses entulhos - nada opcionais - está me devorando por causa da memória e seu futuro.  Mergulho de frio na pedra movediça do pensar e anseio perguntar sigilos aos domicílios em que me deixei morar. Olha, agora achei um rastelo de pentear areia! Queria arrumar os canteiros do acaso. Esvaziar alguns vasos.  Talvez desabar esses muros de arrimo brotados no peito, quando da  invasão de coisas tão menores. Tenho rumores do mundo. Ainda tremo e me incomodo de urgências.   Fecho os cômodos da casa nunca mais inaugural do sonho. Fecho o quintal e deserto meus litorais em litros de leituras, pequenas fúrias, ossos e ninhos, no fundo do que não sei, pois não saber é a extensão mais forte do abandono. Abandonar não é perder. É não olhar. Eu escolho o cansaço quando escrevo, para salvar os nervos da flor que armazenei num tijolo do terraço, mas sinto sono. Não. Não sou a dona desses medos.  Dormir atinge-me mais longe do que os lugares me fogem. Abrange anjos antigos quando arranjam-me de música,  em plena afasia do que resiste. Anestesia as pedras antes que perfurem a pele transparente dos vidros. Abriga em mim a minha rápida janela. Lapida-me nela. Lápide moída. Menos cega... E me prossegue.

1 de julho de 2015

Mínimos Oratórios D'água para Guardar Hojes



I - MANHÃ

O dia pede
levante.

Tenho quase
 quarenta perguntas
inflamadas
na garganta.

Correntes
de ar
transpiram o frio,
a fio.

Inclinam-me,
da neblina
à esquina
do acordar.

Enleio nas mãos
meu pequeno cachecol
 de conchas

e me calo

até a metade
do olhar.

Ajoelhar.
Tantas vezes
como faz o mar
no dobrar
de cada onda.

- Até que o céu
responda.

28 de junho de 2015

O Voo das Arraias


São nos raios d'água
que as arraias raiam.

O ar desmaia
em desângulo fôlego.

Losango-corpo carpindo voos
sobre marinhos quintais.

Em peitorais velozes
 perfuram a pele do mar,
talvez felizes de voltar.

Volitam antes do atrito.
Giram até o grito virar

música.

20 de junho de 2015

um pouco de prosa

da série
Breves ensaios recortados para pulso

46


É sábado e eu caminho em dobro. No lado mais lacrado do retorno vejo o céu, com seus ossos nublados, dublando a friíssima tarde. Deus canta. Pede que eu me invada e invente  novos esquecimentos a fim de expandir o trajeto em direção a cavernas mais amplas. São templos de restaurar flores para os rigores do inverno, nesses vasos comprimidos,  cansados do coração que se adianta. Em tese, tropeço diante da morte tantas vezes e ela -nos cantos do tabuleiro- me levanta. Sim, penso em Bergman, do filme. Penso nas sete cartas que não postei, enquanto submergem alecrins de coragem nessas xícaras de trazer calma. Talvez algum sono.  Insanos cântaros cheios de chá profanam toda a água brotada na antiguidade dos olhos: depõem contra a minha sede desde as paredes da garganta. Acaso-me de enigma porque estou me dobrando à obra e não sabia. São outros os tempos verbais agora, e era da alegria que o mar estava faltando, quando me bebia. É na alegria que sempre me perco. Eu prometo.

14 de junho de 2015

manhãs de estudo com Blanchot


Café de estudo com meu amigo Blanchot...

"Rilke desejava que o jovem poeta pudesse perguntar a si mesmo:  'Sou verdadeiramente obrigado a escrever?' a fim de ouvir a resposta: 'Sim, é preciso.'  'Então , concluía ele, edifique sua vida segundo essa necessidade.  'Esse ainda é um subterfúgio para elevar até a moral o impulso de escrever. Infelizmente, a escrita é um enigma, mas não fornece oráculos, e ninguém está em condições de lhe fazer perguntas. 'Sou verdadeiramente obrigado a escrever?!' Como poderia interrogar-se assim aquele a quem falta toda linguagem inicial para dar forma a essa pergunta, e que só pode encontrá-la através de um movimento infinito que o põe à prova, o transforma, o desaloja daquele 'Eu' seguro, a partir do qual ele acredita poder questionar sinceramente? 'Entre em você mesmo, busque a necessidade que o faz escrever.'  Mas a pergunta só pode fazê-lo sair de si mesmo, arrastando-o à situação em que a necessidade seria antes a de escapar àquilo que é sem direito, sem justiça e sem medida. A resposta 'é preciso' pode, de fato, ser ouvida, ela é mesmo constantemente ouvida, mas aquilo que no 'é preciso' não se ouve é resposta a uma pergunta que não se descobre, cuja aproximação suspende a resposta e a torna desnecessária."

(BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. São Paulo:
Martins Fontes, 2005. p 40-41)

12 de junho de 2015

respirações mínimas sobre o amor


O amor é um rumor de remos
lançados em mares
nunca pequenos.

Se para eles ainda não fomos,
nós iremos.

Arrumando rumos,
remoendo rimas, amoras
e arames de tecer as horas,
sobre os derrames
da eternidade
e mais um pouco de agora.

O amor é éter de atar vontades.
Avatar envolto na selva cheia,
da saudade.

Clichê, por vezes renascido
de novidades.

Longe. Porto.

Perto.Sonho.

 Senha de Eros.
 Urso.
Desenho incerto.

Insônia dos justos.

Susto em movimento.

 Relento.
Alento.

 Mantimento e fome.

Indigência.
Nome.

Gume entreaberto.
Deserto em que me encharco.
Costume. Voo.
Ninho ao vento.

Vaga-lume-marinho
com barcos de pousar dentro.

9 de junho de 2015

prosa poética

da série
Breves Ensaios Recortados para Pulso

 22
Saul Vilela



Acrescento-me de escrita para remendos mais azuis, hoje. Azuis-precisos. Celestes, as órbitas e os glóbulos reconduzem-me  aos estertores dessa música incessante, concentrada no extremo convívio de tudo (Tudo o quê?). Não posso parar para pensar agora e vou rápido para não perder o que me espera nesse fluxo assistido. Já perdoei as memórias por puro excesso de  abandono, mas isso não vem ao descaso. Apuro-me em autêntica audição para os  prelos acumulados de expectativas bem mais agudas do que isso. Quando eu podia supor suportar-me em atlântica saudade, era um sintoma muito cedo ainda,  para alguém que mais tarde saberia da anatomia desses barcos só de ida.  Adiei-me, assim, de silêncios baldios sobre os terrenos do peito em foice, pois é próprio da dor transformar-se antes da glória. Limpo o quintal. Há um rondar de águas aqui nos olhos em movimento, antes de qualquer auxílio repentino derreter o metal de meus poentes,  rente às consagrações desabitadas da razão. Aceito o não-futuro-fruto  rasgado da ação, medida a um palmo de tristeza. Tenho tanto rezado nas dobras desse tempo, que aumentei consideravelmente de hiatos minha respiração. Dilato a vida nos muros quebrados do olhar.  Sem surpresas. Mas no fundo tenho pânico. De oceanos e acenos. Esfrego os olhos do rio na correnteza.  Não esvazio nunca o sono. Corto uma laranja no meio da noite mas não adianta. Vejo dois anjos maciços no canto esquerdo da esfinge. De longe, atinjo-me na cavidade da falta e há um temor razoável:  um possível tumor às pressas que me traz flores para a despedida. Não será fácil agradecer ao medo tantas flores. Mas elas serão fortes feito aquelas ancoragens de estimação. Costuradas à mão.

2 de junho de 2015

um pouco de prosa

da série
Breves Ensaios Recortados para Pulso

TRINTA E UM

Wassaly Kandinsky - A Batalha

Escrevo de próprio punho. Aberto. Já é junho e eu proponho não desistirmos do fim, porque o fim é tão recomeçante. Suscita coragem. Sem adornos, mas bem depois. Exercita viagem de retorno de tantas coisas e não-coisas e, sabe,  algumas nem  chegaram a partir. Porque nunca estiveram. Mas como eu estava dizendo,  regressar é difícil. Principalmente quando não se pode ceder aos desvios (quem precisa deles?). Por dentro, os roteiros são os mesmos. Os mapas estão fixos. É tudo tão redundante e ameaçador e agora eu tenho  que perdoar a dança das migalhas e desconstruir a morte, a vida,  a sorte, os cortes, as côrtes. Desconstruir necessita demais de  inéditos caminhos. (Interiores?) Além disso,  não sei se posso suportar uma existência inteira de acasos, sem esculpir-me; Sem escapar-me do que não foi. Casa de seixos. Deixa-me ir. A solidão está convicta de que vou separar as conchas. E remover os peixes. E avaliar o sal em sua pele. É tempo de retirar, dos sonhos, o pior; Retirar também a gentileza a esmo,  exposta na fratura dos dias. Não. Não diga que sou doce. Amanhã poderei ter formigas na boca. Quem nunca?

27 de maio de 2015

poema aos poucos

Wassily Kandinsky - Composição Clara

um poema pronto
desponta,

me apronta

 para as novidades da beleza,

a ponto da tristeza
 ser uma rima mais fácil.

posfácio do que  imaginei
prefácio contínuo.

um poema crescido,
nunca retilíneo,
prossegue em minha pequenez.

deve ser um longo futuro
esse que nos fez.

25 de maio de 2015

um pouco de prosa

da série
Breves Ensaios Recortados paraPulso
Setembro - Gerhard Richter


QUARENTA E TRÊS

Quando me soletro de ausência, crescem vestígios de sal feito caramujos que já não são. É uma dor sem osso. Calabouço nas conchas que construí para proteção dos externos. Cavernas imaginárias não precisam de sol para decifrar os dias. São relógios de pedra desgovernando pulsos. São bússolas canhas à minha escrita. Quando me soletro de ausência, recolho as pedras para dormir antes. Amanhecer é um luxo para os que já não contam. É sempre um lucro indevido aos que se confinam demais na fuga. Escapulários me inscrevem na proteção porque tenho vocabulário repetido de esperança, o que é sempre um risco à literatura. Alitero-me só até a altura do som. Altero-me de fim em fim para alcançar impossíveis revestidos de sim, mas é bem raro.
No entanto,  virá dia mais claro, de bondades plenas e almas em  plumas, que acalmem das ondas essas espumas. Mãos de lumes - mais firmes -  nos lemes, da memória e seus vãos, retornarão. Porque nos cômodos da solidão dorme a fórmula da lágrima, e seus milagres em grãos. Graças aos nãos.

23 de maio de 2015

Os Cavalos

Cavalo vermelho e azul - Franz Marc
O que eu poderia dizer dos cavalos...

é que eles transferem a limpeza
para as manhãs,
com antecedência.

Cavalos têm coração anônimo

e um silêncio irrevogável.

Não sei se posso ponderá-los
no peito, de um sonho só...
em sacrifícios aderidos.

Tenho sequelas idênticas.

21 de maio de 2015

8 de maio de 2015

um pouco de prosa

da série
Breves Ensaios Recortados para pulso

QUARENTA E QUATRO
Mulher tocando bandolim-Pablo Picasso

Estilhaços à parte, que estou cantando agora... Isso não é um blues - talvez tivesse sido -. É que tenho tempos indevidos. Isso é um ensaio. Só. Eu canto lento pra dentro da indecisão e me retorno. Sem saudade. Tudo já está pela metade do fim. Por isso, amanhã sonharei com bandolins de vidro, como se fosse ontem. Ontem, apenas. Mas será tarde. Os sons já terão se movido de acordo com a luz neles refletida; luz que imita a voz e sopra de solos os dedos em calos, definindo matizes no latejar das próprias pontas. Afinal de contas, precisarei saber ouvir mais do que posso; mais do que pulso... Ritmo! Ritmo ou meu corpo convulso dedilhando vésperas? Sono áspero, entrecortado de escuros e esta música que deturpa as frestas - da razão?-. Quem dormiu de azuis as farpas? Uns bandolins com olhos de harpa:  dois anjos tão surdos que pensam que restauram as cordas.São tantas. Amanhã saberei da garganta - trincada - em soluços solícitos, por causa do espelho que duplica o corte. E que seja boa a sorte! Sinceramente, não sei como esses bandolins vieram parar aqui. Nem a harpa.


4 de maio de 2015

2 de maio de 2015

Pra não esquecer de ler...


Viagem representa um momento de ruptura e renovação na obra poética de Cecília Meireles. Até então, sua poesia ainda estava ligada ao neossimbolismo e a uma expressão mais conservadora. O novo livro trouxe a libertação, representando a plena conscientização da artista, que pôde a partir de então afirmar a sua voz personalíssima: "Um poeta é sempre irmão do vento e da água:/deixa seu ritmo por onde passa", mesmo que esses locais de passagem existam apenas em sua mente. Como o título sugere, o livro é uma longa e sedutora viagem, mas por rotas imaginárias, identificadas pelos sonhos que se dissolvem em lonjuras sem margens, com vaga consistência de realidade, na qual as palavras se harmonizam em pura música: "Estou diante daquela porta que não sei mais se ainda existe... Estou longe e fora das horas, sem saber em que consiste nem o que vai nem o que volta... sem estar alegre nem triste" Encontro consigo mesma, revelação e descoberta, sentimento de libertação, desvio pelas rotas dos sonhos, essa Viagem se consolida numa série de poemas de beleza intensa que, por vezes, tocam os limites da música abstrata.

Fonte: www.globaleditora.com.br

29 de abril de 2015

um pouco de prosa

da série
Breves Ensaios Recortados para Pulso

38

Óleo s/ tela, Edouard Manet, A Execução de Maximilliano

Sem poesia hoje. Sinto distâncias mais graves do que o normal. E isso é meio mortal. Ai, perdoem a rima fácil. Perdão é difícil, eu sei, e pode ser confundido com... tolerância, por exemplo. Porém, me disseram que é preciso preservar a dignidade. (Qual? Quem define o que é digno?) Esquecer. É uma condenação também. Fazer a penitência diária do silêncio. Ser criativo na renovação da indiferença; Que voltar atrás significa não ter amor próprio.  Por que o amor tem que ser próprio? Deve ser porque o alheio é perigoso demais. Os vidros ficam assim depois da queda, vocês sabem. Facilmente são absorvidos pela carne. Se vissem o que estou vendo agora... É de cortar o coração. Um peixe está sendo “limpo” vivo. Sabe o que é ter a cabeça ceifada aos poucos, com os lábios ainda em movimento? O medo se debate no corpo, meu e dele. Os olhos se apavoram. É uma dor sem volta. Rasteira. Indigna.
Executória.
Doer é humano!

27 de abril de 2015

O Sopro de Deus



               * “Quando eu virei a esquina                
 minha casa estava no meio da rua..."  

Três da tarde.
A brisa se perde nas paredes
da tempestade.

Metade das nuvens
habita a mesma instabilidade;
adere à ira.

Deus respira.
Forte.

O ar se parte e se concentra
em cirúrgica travessia.

Imprevisível sopro.
A cidade e sua sobra
se equilibram -tentam -
entre as têmporas do temporal.

Varal de humanos
 indefesos feito panos,
com seus planos a esvoaçar
 - sem radar -

Funil de vento.
Sobre a pele de todos os relentos,
expele das árvores,  passarinhos
e suas manhãs guardadas, seus ninhos;
Expele também da terra as árvores
- À revelia?

Quem diria...

Redemoinhos tocam os nervos do solo,
sem intervalo.

Cavalos voadores e casas em coice
se cortam,
giram feito hélice;
crescem nos alicerces do medo.

Ainda é cedo
mas escurece.

Por três minutos
a eternidade oferece seu conta-gotas.

Não há tempo para prece
se o sopro tem pressa.


* depoimento de mulher atingida pelo tornado de 20.04.2015, ocorrido na cidade de Xanxerê-SC.

21 de abril de 2015

Pra não esquecer de ler...


“Aquários recortados na uniforme escuridão encerram regiões de imortalidade, mundos de luz solar constante onde não há chuva nem nuvens. Seus habitantes fazem, sem parar, evoluções cuja complexidade, por não ter nenhuma razão, parece ainda mais sublime. Exércitos azuis e prateados, mantendo uma distância perfeita apesar de serem rápidos como flecha, disparam primeiro para um lado, depois para o outro. A disciplina é perfeita, o controle, absoluto; a razão, nenhuma. A mais majestosa das evoluções humanas parece fraca  e incerta comparada com a dos peixes.”
É Virginia Woolf, em “O sol e o peixe”, ensaio que dá título à presente coletânea, na qual se reúnem nove de suas prosas mais poéticas. Nelas, Virginia contrasta a visão de um eclipse total do sol com a dos peixes num aquário de Londres; discorre sobre Montaigne e sobre a paixão da leitura; relembra, em traços delicados e comoventes, a convivência com o pai; teoriza sobre a nascente arte do cinema e sobre as relações entre a literatura e a pintura; enaltece as paradoxais vantagens de se ficar doente; celebra as belezas naturais de Sussex e as delícias urbanas de uma caminhada fortuita por Londres. Eis aqui Virginia, em toda a força poética de sua prosa.
Fonte: grupoautentica.com.br

19 de abril de 2015

breves ensaios recortados para pulso

Quarenta e dois


Fui dormir tarde ontem.
Estive pensando nesses ensaios. Já não andam mais tão breves como antes. Por vezes, parecem cães  correndo atrás do próprio rabo.

Afinal, a vida não é justa. Ora, quem de nós não sabe?!
 (risos poucos)

Vejamos esse texto, por exemplo, queria ser um poema. No entanto, as palavras e seu entorno sinalizam que ele  será prosa - no máximo poética - em tentativa constante de evolução.

Por isso ele fala demais e corrido às vezes, pois ainda não alcançou a disciplinada sutileza da concisão. Desculpem. Não é bem de concisão que quero falar. Ele confiou a mim sua vontade de ser poema e eu que não sei mais prometer...lhe avisei que tudo dependeria do mistério.

Eu não queria fugir...Não queria fugir do assunto mas antes que eu esqueça, hoje vi saíras-de-sete cores. No sonho.
Se são pássaros? Sim, são pássaros coloridos e apenas no interior do sonho foi que eu pude compreender seu linguajar...de outra ordem.
Mas aí já era cedo.

 Um pouco eles cantavam e um pouco dormiam. Além do que eu esperava. - na verdade nem esperava nada -

Fora do sonho, eu também dormia, aliás, dormir é sempre uma espécie de pedágio para o sonho. Seria eu o deles?

Bem, o que importa é que isso não quer dizer nada além do que a alma precisa saber, mas naquele momento tão real, senti uma pequena trégua de toda mágoa escoada há séculos entre os córregos do coração.

Era uma alegria mínima,  muito desacostumada de si mesma, humilde, feito quem já sabe perder,  "premiando-me" sem que eu tivesse novos "bilhetes" para conferir.

Eram arco-íris pousados pela primeira vez sobre a pausa longa, triste e fugidia de minhas quimeras.

E  eram cantos rezados de beleza, estendidos em  miligramas de  milagres, sobre a mão de minha última descrença.

Eram flores musicais inaudíveis aos jardins engaiolados desse mundo.

E voavam entre as lacunas, aquelas, que nos arredores da vigília, não fui capaz de preencher, por absoluta falta de realidade ou excesso dela.

Contado o sonho, voltemos ao assunto inicial.

E eis que hoje pela manhã perguntei  ao meu jovem cão, Jobim: "Você acha o mundo justo?" Ele, com seu abanar de rabo, me disse contente, que não.

Sem entender, faço de conta que me contento também. Porque tenho pressa. Nem sei de quê. De terminar o ensaio, talvez.

Mas...E agora?
Pra onde vamos com esse texto que queria ser um poema e não será e que está quase latindo pra mim?

 Agora escreverei que ando em hospitais azuis-longínquos. E são reais. Visto muitas roupas de paciência por aqui.

Tenho me ensinado: os pássaros não podem cantar sempre que eu quero.

Assim são as palavras se as tornamos exaustas. E se elas voltam contra a vontade,  bagunçam o tema.

Não há critérios quanto ao tema. É como respirar. As substâncias inaladas são renovadamente outras.

Por outro lado, há pulsos sob medida para os que insistem em frequentar o "invisível" das palavras.

Não. Em geral, também não há critérios para escrever sobre hospitais e pássaros de sete cores.

Apenas, às vezes, é preciso mudar de cansaço.

Agora... vou para o quintal brincar com Jobim.

No cenário....

                         canários,

                                     sabiás e trinca-ferros

                                nos observam do sonho,

                                ou melhor, da árvore

                                que não cortei...

8 de abril de 2015

prosa poética

da série
Breves ensaios recortados para pulso

Vânia Valdo - Duas Faces Felizes

TRINTA E NOVE

Sobrepujar é incrível! Ah, se pudéssemos abstrair as tempestades. Em alguns momentos seria até desnecessário padecer; suportar os antibeijos, as tocaias...E mais isso!
 É que  preciso cantar um agradecimento. Uma glória. O milagre da apoteose. Porque as crianças brincam novamente. Há sinais de restabelecimento nos brinquedos. Sorrisos invariáveis sobre a quase noite. O sofrimento agoniza em si mesmo, agora.
Às vezes a vida é um vencimento. De vencer. Acontece.

1 de abril de 2015

TREZE

da série
Breves Ensaios Recortados para Pulso

Se eu te falasse, diria das cerrações. Tão baixas se vindas de ti. Eu falaria da escassez das promessas, pequenas demais para que eu te esperasse cumpri-las. E mencionaria falsos cristais com os quais acariciaste minha língua; Reverteria teu corpo do meu, com palavras refeitas em partículas de tempo. Protegeria os fluidos de nossa culpa posterior. Se eu te falasse, seria com rastros de beijos infectos durante a ausência. Te pronunciaria - aos poucos - o enterro dos sete vampiros que amei; Da luta permanente para resistir à vontade de acordá-los. Se eu te falasse, seria depois de recolher os olhos e a medula. Seria para adiar o inferno. Proteger-te do ódio involuntário, com antecedência. Se eu te falasse, suplicaria as flores que desisti no solo de tuas atitudes. Inférteis. Se eu te falasse, diria das cerrações. Tão chuvas em mim, se vindas de ti. Se eu te falasse, seria com tempestades. Tão velhas que já não conseguiriam fecundar o sol. Depois,  te professaria uns futuros que seriam sonháveis, não fossem incapazes de ti. Se eu te falasse, não bastaria.

27 de março de 2015

um pouco de prosa...

da série
Breves Ensaios Recortados para Pulso

ONZE

Edvard Munch - O Grito


Hoje, febre. Não retirei as amídalas por pura falta de coragem. Tenho imunidade baixa às tentações do orgulho. Me fazem mal. Desconhecem que tenho águas fugidias sob os escombros  dos olhos; muitos metais naufragados: remorsos de ser mar em meio a arquipélagos distraídos  às tormentas que enfrento, sem aprender como avisar. Antes. Não sou adepta dos finais revestidos pela fina linha da precocidade.  Alguém sempre se fere de antecipação. Contudo, esqueço bem. Me disseram que o impossível passa. Não sem eternidade. Conheci uns e no entanto,  isso é íntimo demais para ser narrado como ficção. Se é real não sei. Porém, os cortes estão abertos. Isso é o que enxergo através da membrana intermitente  na retina esquerda. Sim, tenho a garganta inflamada mas não estou rouca. Estou completando a quietude. Me acostumei a ver. Rastejado, talvez. Porque há um Ser  imenso para o qual não há adjetivos que bastem, por ser tão imenso mesmo. Eu soletro a sonda em sua mão. Eu balbucio-a. É estreita o suficiente para as incisões que não são largas. Mas profundas. Então, Ele a insere lentamente...todos os dias,  de modo que os cortes não fechem e assim  não deixem de fornecer dor: esse sentimento útil para que os humanos possam saber de sua abissal fragilidade. Falar de Deus é fácil. É como falar de cicatrizes que não podem.

24 de março de 2015

A Janela


Uma janela cega

me abre
    aos poucos,
           me olha,
                         me segue.

Convida-me...
 devagar

      ao milagre
          da entrega.

Migra-me
até alguma pequena alegria
qualquer.

Pode ser a chuva
que lava da casa a ansiedade.

Pode ser uma aldeia
com folhas sagradas,
dessas que depuram a febre.

Pode ser um varal mesmo,
de roupas imitando pipas.

Ou podem ser tulipas brancas,
múltiplas de perdão,

enquanto pardais adornam
o corpo da janela
até a cama.

   Até a calma...



23 de março de 2015

prosa poética

da série
Breves Ensaios Recortados para Pulso

Dezessete
Visões. Tu. Montanha imaginária. Logo superfície. Lago evaporado nos pulmões. Pânico de vulcões. Rima desprotegida. Planície. Delicadeza em trégua. Armazenada. Chega. A hora insaciável do adjetivo. Central. Azul escurecendo. Dadaísmo vivo com recortes de pulsos. Falsos os teus. Em meus. Sinais. Nuvem terminal. Urso polar. Carícias de granizo. Não. Ferro. Ferrugem convertida em vidro. Agora sal. Lavando os pés após. Pregos. Apegos. Silêncio em construção. Tesouras de dormir. Deus. Por que? Parque de aversões. Anestesia leucêmica. Karma. Amor clichê. Alma transversa. Flauta. Falta. Peixe na pedra dolorida. Ex-camas. Letras carnívoras. Desejo em cânfora. Sonhos empalhados. Nuncas de metal. Animal de desistir. Eu. Violinos de estimação. Vi.  Visões. Antes dos olhos.

22 de março de 2015

poema amanhecido



A fala afia a carne.
Avulsa veias de arame
no cerne da poesia.

A língua se desfia no germe
da palavra faca. Falta.
Escava teias de lume
no gume  amanhecido
do poema.

O poema atrofia lâminas
no osso mínimo
da alma:
celeuma de sonhos 
decompostos.

O verbo dos opostos
desafia a pedra
no alpendre esconso
dos desejos. 
Apazigua o nada.

18 de março de 2015

um pouco de prosa

da série
Breves Ensaios Recortados para Pulso

OITO

Léo Brito - Dança na Madrugada


Ensaio sintomas de anestesia. Mais no espectro do que no resto. Manifesto-me com palavras amenizadas de vísceras. Um pouco quero ser mais fácil,  na medida em que me desprendo dos limbos de certos terrenos, enxertados de carne e gesso. Um pouco contraceno com as mãos, na tentativa de retroceder a todas as vezes que sem querer, parti. Despeço-me ao contrário, já que os itinerários, de repente, perderam o senso. Estou saindo lentamente do útero do tempo. Às vezes volto porque meus desperdícios adormecem em relógios de vento. Estou saindo em plena consciência de ser. Acumulo mais que uma dimensão no centro do peito mas não sei explicar. Improviso silêncios exteriores para poder dormir, como se não fosse inútil apagar a luz depois do cigarro. Minimamente posso ver além da que me perdeu: esta outra de mim designada à contraface do espelho. Calculo a profundidade do retorno. Será difícil não demorar durante a dor. Edifico túneis por dentro da música provisória que me inventaram, quando minha última fuga era esquecê-la. De ouvido.

15 de março de 2015

um pouco de prosa...

da série
Breves Ensaios  Recortados para Pulso

                                          

VINTE

“...que seus licores filtrem-se em mim,
nessa cápsula de vidro,
entorpecendo e apaziguando.
Mas sem cor. Sem cor alguma.”
Sylvia Plath

Vazios. Prefiro os de antes.Uns arrozais plantados nos olhos da infância. Viagens. Gostava dos asfaltos de domingo. E uma calma implantada por Deus, quando me cuidava. Agora,  azuis devastados. Estradas gerais, apenas. Brancos incontestáveis. Aventais de chuva. Bolinhos de avó.Ontem. Agora sal. Superfície de areia. Extremidades no caos. Menos. Cemitério em mim. Águas extraviadas. Brasas sobre a pele. Os dentes esforçados no verbo. Sorriso dentro. Uns dedos inventados em anéis de cortiça. Calores de isopor. Baixo ponto de ebulição. Da lágrima.
Pormenores mortais.
O de sempre.

9 de março de 2015

A mulher de que sou feita

Obra de Di Cavalcanti
A mulher de que sou feita
não me falta;
ajeita aos percursos do corpo
 discursos em harpa,
 para as farpas sobrevindas no tempo.

Um campo repartido de música,
com flores carpidas dentro,
a concentra.

Nos epicentros
a mulher em que me salto
ainda reage... range;
Refaz-se no manco dos tamancos.
Abrange-se da história!

Já não brinca nos brincos perdidos
das falanges.
E quase tudo o que lhe fingem
 não mais a atinge.

A mulher que de mil longes
me euforria, chama-me;

Toma chope, choque, chute;
 tem chistes, encharpe e chapéu.

Insiste em desbravar o céu do céu.
- depois consegue -
É linchada, às vezes dentro,
às vezes fora
 do véu.

A mulher que em mim se assenhora
devora o muro dos murmúrios.
Melhora-se em mar, alma e cerne.

Já não esculpe o amor
 no mármore dos mitos,
os quais talhando
desabito.

A mulher em que me hospedo
aprendeu a domar metade das pedras:
emparedou-as nos preâmbulos
do rio.
Não lembra mais em que rio.

Desafio de não saber o que não serve,
na luz aberta dos critérios,
mais amplos, agora.

A mulher em que me exemplo
não se isenta daquela que não fui,
mas flui, atenta,
no tinto vinho dos quarenta.

Experimenta a vida e já não engole
golpes em goles de paciência.

Passeia nos galopes velozes da essência
antes da ausência.

7 de março de 2015

prosa poética

Breves Ensaios Recortados para Pulso
SETE

Regressei de escolhas. Porque eu havia desacreditado demais no amor para voltar atrás. E tive que ferir os lábios ajustando beijos a bocas que não me cabiam. Mas agora...É da transição que estou falando. De dentro da transição para a qual fui chamada ainda que agora. É do arrependimento brotado em cada estação que nasce a muda. Meus anticorpos têm funcionado bem. Na medida em que combatem o vazamento das veias que violei, também bordam em alto relevo sobre a carne, possibilidades. Por outro lado, se é dever cumprir os impossíveis, também não há escapatória quando o seu avesso resolve atravessar certas portas fechadas por precaução do abandono. Já estou com as mãos agarradas às margens do poço. Mas os pés ainda estão suspensos. Há meses trabalho na construção do impulso. Estou olhando para o salto. É para isso que recuperei o movimento dos músculos. É claro que percebo a cilada, mas dissipo-a e assim...humildemente mordo a impossibilidade, quero dizer, a isca. Para saciar o corpo da entrega da entrega da entrega. Posto que amor é coisa para peixes, melhor mudar de ensaio.
Composição com Peixes- Francisco Brennand

4 de março de 2015

prosa poética

Breves Ensaios Recortados para Pulso

NOVE

Há noites em que é melhor não sair de casa. Noites tão banais quanto esta frase. Mas a esperança engasga em hipóteses de que deve haver um rastro de ilusão indolor lá fora. Digamos que houvesse. Eu não estaria nesse exato momento preparando a devolução. Embrulho as poucas coisas, os pequenos acontecimentos que Te pedi, uns cinco ou seis no máximo, em algodão desistido de branco. Depois envolvo-os em papéis redobrados de  cansaço e com delicadeza – a de sempre – amarro barbantes por cima dos jornais envelhecidos de fé mas nunca de utilidades. Tudo o que Te devolvo está confuso do jeito que Me entregaste. Repito o procedimento para cada uma das tréguas que supliquei  sem descuidar das promessas. Inverto as promessas e não quero que penses em vingança de minha parte. Afinal, Tu não fizeste nada.  Daqui há alguns minutos vou me livrar disso, dessas coisas das quais as pessoas parecem precisar para funcionamento do ser feliz. Acontece que a última noite me pensou em realidade. E  ter as mãos vazias é a minha novíssima condição. Na verdade, a única. Porque descobri que é dentro do nada que dorme a euforia acima do não e do sim. Do nunca  e do sempre. Do que é amor e do que é verdade.  Devolver é difícil. Eu devolvo.



Adicionar "Murnau com Arco-Íris" - Wassily Kandinsky
Pintor expressionista e abstrato russo (1866-1944)

3 de março de 2015

prosa poética...

da série
Breves Ensaios Recortados para Pulso
VINTE E TRÊS

Salivar de sol cada manhã mal desenhada, quando bebo uns cafés semelhantes à vida: insolúveis. Deve haver um reflexo de verdade em nada disso. Mas perguntar é insone demais para sorver o risco de acordar por dentro. Faz águas decretei silêncio aos invisíveis que me pronunciam em amor. É que as palavras ficam rasas em xícaras de carne.
E é de porcelana esquecer.
Adicionar legenda

Breves Ensaios Recortados para Pulso

QUATRO

Segunda-feira.
 Vejo o sol nascer pelo espelho retrovisor da alma. À frente, corredores imensos, brancos de procura; Fechados em seus finais mas os olhos inventam horizontes  para contar, cortando de medo,  sempre dialético, essa manhã geométrica.
Meus dois lados acenam-se contra a despedida: dois gerúndios confundidos sob a neblina dessa espécie de sono ao quadrado.
 É preciso levantar para limpar a dor de hoje. É preciso? Sim. Engraxar os sapatos novos - ainda que novos - aos velhos caminhos. Sacudir as retinas para que o cotidiano remova mais uma vez, a poeira do indesejado: ceder o corpo ao lado de fora das paredes.  Exercitar os músculos dessa viagem, para manter em forma o tédio.
Fazer o desjejum. Sair. Arriscar-se.
Correr de encontro às iscas de mais esse dia, que Deus já saiu para pescar.
Mark Rothko, 1951

1 de março de 2015

um pouco de prosa...

da série
Breves Ensaios Recortados para Pulso

TRÊS

Ai de mim que aspiro. Ai de mim que espero a coagulação do azul sobre o horizonte incinerado para a purificação das expectativas. Porque concluso, o chão exerce sobre os que crêem, um efeito de ímã despertador. Porque de metal, as raízes do sol se movem lentamente na membrana dos glóbulos, como se fosse hora de amanhecer. Se não lembro do relógio é porque não faz parte do meu pulso. Se não lembro do relógio é para permanecer mais tempo no outro lado de mim: aquele menos ponteiro. Ah sim, sim. Já estou indo para a reunião. Reunir é um ato provisório demais para os dias que não me preparei viver. Reunir é aleijar a poesia que me cabe.Quando havia tempo em meu calcanhar, costumava sair lá fora, apontar a face para o céu. Custa tempo olhar o céu. Custa chão tecer o não. Agora sim.
Mark Rothko

um pouco de prosa...

Breves Ensaios Recortados para Pulso

                                           DOIS

Dentro de uns ontens, vertigens de anjos sobre a pele do asfalto. Nuvens de cobalto arrastavam seis olhos contra o tempo. Era deus. Predestinando-nos ao invisível, provando-nos em cegueira, furtando pedaços do percurso. Era deus abrindo uma fresta do infinito, permitindo que espiássemos o corpo do nada em instantes fugidios. E a paisagem varava as retinas alinhando desvios em dimensões idênticas. As almas já sem placas, sinalizavam energias longínquas deste mundo, desprotegidas de matéria: livres dos cinco sentidos.
Éramos quinta-feira e parecíamos a eternidade. Rindo.
Mark Rothko


28 de fevereiro de 2015

um pouco de prosa...


Breves Ensaios Recortados para Pulso

UM

Remendo a arte descosturada pela farpa de meu calendário atual. Estou por um fio, suspensa no descontentamento maciço, dobrado a ferro sobre a coluna das fés, essas que costumo armazenar para os dias e noites vindouros. É assim que alinhavo o estômago desta invernada por onde me esqueço de nascer. É assim que domestico a contragosto a úlcera da espera. 
Tomo cataflans de seis em seis horas mas às vezes também esqueço. O tempo não regenera a covardia de certas escolhas. 
Cancelo compromissos que a vida intenta, efetuando bolhas na sola dos sonhos. Sovo de fuga as amplitudes deixadas de lado, para dedicar-me à ignorância dos que resolveram me acariciar de inutilidades.
 Não faço dívidas para contradizer a Deus. Sonego afetos. Atraso-me aos amigos feito alguém que precisa chegar mas enfrenta engarrafamentos incuráveis. Tudo transita.Congestionada a alma, os sinais estão parcialmente fechados, intermitentes feito um pulso recortado em três. Tempos.
Mark Rothko


14 de fevereiro de 2015

Arauto

Evoluções - Ariane Daniela Cole -
Aquarela sobre papel
O tempo guarda todos os presentes
para futuros menos
extintos.

Aprendizes de ilhas ,
as trilhas das próximas manhãs
desenham rotas nada semelhantes
às de antes,

enquanto diamantes aborrecidos
 dormem no lado mais fundo do rio.

Nada se quer absoluto.
O luto nem sempre é
um atributo da ausência.



Observatório da Manhã - no campo -



Respirar.
O ar veleja nos pulmões
dois barcos mínimos.

Sublime manhã
 - agasalhada ainda -
entre os braços da neblina.

Ela sabe nublar-se
mas só até o que ilumina.

Cavalos com sol nascendo
nos olhos.
Os bichos não imaginam o dia.
Aceitam-no
como se fosse o princípio inteiro
da beleza.

Um cheiro de café forte
foge da mesa.
Passeia aqui fora.
Purifica o ato do poema.

Tudo tão bonito se
visto de dentro.

O sofrimento é o pão exato
de reinventar-se.
E refazer o nome do próprio nome
com a fome de merecê-lo.

Deixar o celeiro da culpa.
Desocupar-se das desculpas,
arrancar-se da caudalosa dor,
com a alma suspensa no deserto,
esse oásis desabituado.

Vista da Água  David Burliuk - 1882-1967

30 de janeiro de 2015

Entressafra



Solo em repouso.
Não ouço o sopro da pausa.
Não ouso mexer em minha ausência.

Sou a casa em que me falto.
Sou o salto em que me espero
na sala de estar da terra.

Adubo-me em ferro aerado.
Assim, semeio-me mais forte.
Sempre!

Preparo-me entre o arado
com areia nos veios dos cortes,
embora quisesse crescer no mar,
numa pequena lavoura de água
 e sal.

Salmoura que florescesse a cicatriz
na semente principal.