21 de dezembro de 2014

poema deixado na porta da tarde...

Joan Miró - Interior Holandês 

Um mutirão de palavras
trabalha sobre o que ainda não sei.

São aços acelerados
que dobro feito lenços
na cabeceira da alma.

Às vezes são sobras inacabadas
e as dou de comer aos cães
se eles crepitam
na madrugada estanque,
quando fazem do meu peito
a extensão de suas patas.

Cada cilada esbanja seu próprio talho
 por onde verto.

No aberto da casa
já não sou oferenda às caças
e só descanso fora das promessas
escassas.

Tenho relíquias invisíveis...
tranquilas no esquecimento.

Aumento as demoras
alojadas no pulso.
Sou o alimento avulso dos relógios extremos.

Suprimo forças na beleza
das vésperas de qualquer milagre.

Depois me alegro no rosto magro
das palavras
que em mim se agregam.

10 de novembro de 2014

Exercício Rápido de Domingo





Cada vez que uma manhã
 chega ao domingo... 
é um milagre.

As janelas se vestem melhor.
Abrem-se os portões, as casas,
as cervejas e as certezas.

Igrejas se arrumam para a missa.
Há uma dança interna 
nas coisas. 
Mas com preguiça.

Crescem  borboletas.
Estufam-se as ondas, 
revogam-se as nuvens;
Calçadas se calam. 
Dormem as chuvas.
Deus está.

Nos domingos
 as dores são mais bonitas.
E os sapatos, e as sobras, 
e as sobremesas.
E as mães.

Sem falar dos cães, 
 tão mais discretos 
 se é domingo.

Se é domingo...
                                 termina mais.



13 de outubro de 2014

Nascimento


             Pintura de Jacek Yerka
























Nasci exausta.
Em um sábado que pertenceu à chuva.

Nasci em dia de inundação.
Nasci em dia.

Difícil atravessar a cidade...

Fui nascendo menos, depois,
na falha principal de cada ser.

Eu venho de onde esqueci
as janelas abertas sobre o peito
 de uma essência que não desistiu.

Sou a soma pródiga por retornar
antes do corpo definitivo
da ausência.

Não é preciso mencionar
 na dúvida a infância.

Crescer não mereceu minha certeza.

14 de setembro de 2014


exercícios mínimos para tigre




Um tigre recolhe as garras do dia.
Apura meus olhos para a paisagem:
cinge-os nos tecidos da calma
até o coma da passagem.

Ele não fere de falha
 minha fuga
nem perdoa remendos
 na espera.
       
Um tigre me acorda no pardo das horas
para o sacrifício do pasto exposto às feras.
Borda em meus pulsos
 o bordô  das veias
abertas em mapa.

E já não mata-me o tigre:
 retira-me dos rios, da caça;
 dos tiros sem causa,
das coisas sem voo, nem pouso...
de tudo o que não pausa.

Depois, cauteriza o pânico
próprio das presas.

Com sua beleza tântrica
embrulha a nervura
do quando.
















Crepúsculo.
Uma borboleta  aleatória
circunda sobre o músculo
latente do mundo.

Tremendo as asas,
 diante das coisas advindas do medo,
muda de ida.
Paisagem na Lagoa


O pescador,
na epígrafe da tarde,
se perde sob a geografia
das redes
em forma de grades.

Agradece aos escombros ensinados
nas ilhas.

Recolhe gravuras de sol
para as bordas do barco.

Transfere o caminho ferido
para o centro do ventre

de uns cavalos-marinhos.

Adentra um mantra no vento.
Sozinho.

27 de agosto de 2014



Cavalo Azul com Arco-íris - Marc Franz

Há uma passagem no tempo
para onde a dor não nasceu.

Há uma escolta de flores
que faz lume no peito
e não fuzila
o zelo...
e não amedronta o elo,
feito martelo moído nas pontas
dos icebergs de Deus.

Há um caminho guardado
no fundo do que não finda;

Uma vinda, uma avenida ainda
 para o sonho
no desabar das sombras...

Um bar, um mar, os ombros
sem carregar
o mundo.

Há um amigo e há um cão
que depois de onze anos
não morrerão
 de eutanásia.

Há vidas e vidros
 no interior
do inquebrável toldo etéreo...
de tudo faminto.

E os labirintos lotados.













19 de maio de 2014

Lavar a louça cedo.  
Pensar no quanto é longa
a estreia da luz.
Luz com cicatriz:
desintegra
minhas instâncias
num contínuo espetáculo
se os cegos me projetam.

Trajeto e lágrima.
Cebola exposta.

Eu derrapo meus olhos no final das águas.
Seguram-me as mãos inacabadas
do merecimento.
Soltam-me.

Escolta de espuma e coentro.

Córregos a tempo
restauram o caminho de nascer das alfavacas:
deslocam duas margens
gêmeas em distanciamentos.
Destroncam da alma os ossos
mais extremos.

Peixe sem espinha dentro.

O corpo de vidro desses copos estendidos,
não suporta a fúria
dos pequenos redemoinhos,
pois precisam ainda de fé
no quebrar da pressa.

Agora, cabe aos meus pés
a intromissão da fuga;

Agora, cabe aos meus pés
o descarrilar das facas.

E caso despedace de promessa o aço,
em meio a protegida existência já fora de alcance,
compete a mim deitar-me antes dos mistérios;
antes dos escárnios que nunca se inclinarão
à fechada infância de meus sois...
subdesenvolvidos,
incólumes às depreciações
do que também eu não serei.

Escaldar travessas...

para que aprendam a entristecer-se com precaução
ante os argumentos que não causei
no amplo espaço de vendar a culpa,
com desvantagem diante dos ondes
em que jamais estive.

É longa a estreia da luz
longe de teu capuz invertido.

- A pia está limpa.