30 de março de 2011

Do Livro de Isólithus

Vladimir Kush


 Quarta Revelação


Flor inicial:
o invisível arco de tua lembrança,
entre borboletas e guepardos,
vacila poemas, pérolas, silêncios...
reparte projetos
em sistemas vazios.

Acrobata da literatura,
invergas imagens
indomáveis às palavras 
que não voltam 
na mesma frequencia.

Indefeso, teu silêncio.
acorda gesso,
empresta tua distância,
engasga nos oceanos
da língua.

Teu cadáver - amenizado na luz -
fuga as paredes
na espessura móvel
do amor
e seu fútil cansaço
após o quarto.

Tu fazes a não-estação.
A sensação do teu dever
jamais cumprido.

Flor final:
não há conciliação adequada
para vidros moídos.
A multiplicação do frio,
com o tempo
quebra as janelas do inevitável
e já não ofende.

Estás no altar de todas as ausências.
O cálice vazio de tuas forças
se desprende dos milagres.

O erro está liberto
se um tigre é teu discurso.

28 de março de 2011

Do Livro de Isólithus



Terceira Revelação


Amestrar vazios é o que te digo.
Quando castigo e prece
concedem-se.
Procede a cauterização cética
do que propõe a vida.
Saída em profusão.
Teu coração já perseverava cactos.
O que não absolve o obstáculo.
Exauriste
em desníveis de promessa.
Desinteressa, agora.

Amestrar vazios é o que te digo.
Conviver.

25 de março de 2011

do Livro de Isólithus

Pintura: Ferreira Pinto

(Segunda Revelação do Exílio)

Sonhei que havia um clã 
misterioso na aldeia, Isólithus.
Com ideias de causar furúnculos 
em delicadeza.
Sobre a mesa, alguns seres
costuravam vínculos 
imperfeitos:
vi os dedos trocados nas mãos
do tempo
que racionava os séculos
por não perdoar os dias.
E havia fatias de outros sonhos
à procura da fome ideal.
Num ritual sem nome 
festejavam-se de inveja
com palavras
tão desnutridas por dentro...

 

19 de março de 2011

A Cidade e seu Rebojo

                                                                                            Pintura de Mari Carmen Souza
Hoje,
nuvens perdoadas de azul.
A cidade e seu rebojo
no estojo do vento,
cinzam.