7 de fevereiro de 2011

O Velório


Naquela manhã havia duas aspas em seu quarto entrecortado de vésperas de tudo aquilo que ficaria preservado, sob medida, nas roupas que o seu tempo guardou para ocasiões melhores: roupas que ele jamais usaria.
Sem perceber, havia tecido no rosto a memória intraduzível da auto-indiferença, do afago escrachado na realidade supostamente agradecida por ter sido sempre intocável.
A loucura improvisada de todas as suas almas era inutilmente arremessada contra  invontades práticas impostas por um mundo cada vez mais distante da consagração da beleza.
“Escritores são assim”, disse a mãe com mãos enfaixadas num rosário rosa. “Eles vão até a extremidade, de um lado ao outro da palavra e depois, depois acho que fica difícil voltarem”. “Por que ele fez isso?”, oscilava a mãe entre a procura e o encontro de razões para tal arrependimento de vida no corpo daquele que um dia, voraz, rasgou-lhe o ventre para respirar vez primeira e sequer chorou para nascer.

Nenhum comentário:

Postar um comentário