7 de janeiro de 2011

Escorpião de Nuvens



Caça-me à noite o escorpião de nuvens.
Escolta-me até o sangue da neblina.
Ensina-me a delicadeza do golpe,
a flor coagulada entre os dedos.

Decepo a estrela decadente e bruta
lançada ao olho da minha noite
absoluta.
Constelação de vidro em forma de dor,
dissolvida a íris: membrana alucinógena da antevisão.
No coração, alçapões de gelo
labirintam o sol em despedida.

Toda felicidade é cega de ausência.

A confluência vesga dos corpos
rasga a seda dos amores
impróprios.
Caleidoscópios incidem
sobre existências não refletidas,
espelhos glaciais.

Sob vitrais do tempo,
epilepsias mitrais não alcançam
o vento bêbado das colinas.
Porque a esperança de marfim
trincou os olhos do amor: rio congelado sob os pés,
refém da mira de mil sóis.

No inverno os distanciamentos são mais agudos.

No pudor das manhãs,
a face ainda molhada da flor
denuncia soluços noturnos.

O orvalho é pretexto de toda flor,
para mentir que não chorou.

A respiração inquieta das cortinas
quebra o sigilo do som.

É preciso edificar silêncios para entender
a compilação das coisas.

Sobre a face, o esgotamento das forças desenhadas à mão:
                             eco de asfixia debatendo-se pela minha boca,
                       o amor,  esse enterrado vivo.

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