26 de janeiro de 2011

A Escolha


Sempre fui dada a alçapões. Desde as fronteiras da infância eu atravessava precipícios sobre um velho e comprido tronco de árvore. Às vezes, olhava para baixo. Era sempre uma escolha entre o riacho de pedra e o outro lado: o lado final de onde os amigos da escola gritavam: “volta.Olha para frente e volta!”. Eu sabia que toda a dimensão do que estava lá embaixo, o riacho, as pedras, os peixes, jamais me perdoariam.

10 de janeiro de 2011

Memória de um sonho I




                                               pintura de Luísa Nogueira

Rabos de rato
nas frestas das portas
Mexiam-se como se acenassem.
Paredes de madeira
pintadas de azul
e manchas escorridas
de branco-sujo.
À frente da casa o mar avançando
sobre a grama que não era verde.

Ao fundo
não havia nada.

7 de janeiro de 2011

Escorpião de Nuvens



Caça-me à noite o escorpião de nuvens.
Escolta-me até o sangue da neblina.
Ensina-me a delicadeza do golpe,
a flor coagulada entre os dedos.

Decepo a estrela decadente e bruta
lançada ao olho da minha noite
absoluta.
Constelação de vidro em forma de dor,
dissolvida a íris: membrana alucinógena da antevisão.
No coração, alçapões de gelo
labirintam o sol em despedida.

Toda felicidade é cega de ausência.

A confluência vesga dos corpos
rasga a seda dos amores
impróprios.
Caleidoscópios incidem
sobre existências não refletidas,
espelhos glaciais.

Sob vitrais do tempo,
epilepsias mitrais não alcançam
o vento bêbado das colinas.
Porque a esperança de marfim
trincou os olhos do amor: rio congelado sob os pés,
refém da mira de mil sóis.

No inverno os distanciamentos são mais agudos.

No pudor das manhãs,
a face ainda molhada da flor
denuncia soluços noturnos.

O orvalho é pretexto de toda flor,
para mentir que não chorou.

A respiração inquieta das cortinas
quebra o sigilo do som.

É preciso edificar silêncios para entender
a compilação das coisas.

Sobre a face, o esgotamento das forças desenhadas à mão:
                             eco de asfixia debatendo-se pela minha boca,
                       o amor,  esse enterrado vivo.

4 de janeiro de 2011

Acalanto para Adormecer Abismos



“...e a aurora exulta pés coagidos na direção
invisível e creio não levar mais
o conhecimento pra dentro
daquilo que mantive errado
mas absoluto.”

C. Ronald.


Madrugada:
tenho mãos e sono confusos.
Ao caminhar pela casa,
contorno a vida
de um lado a outro
com os olhos presos
por dois ganchos arrependidos.
Um, suspende o amor pela cegueira.
O outro liberta a sombra que nunca fizeste.

No contratempo dos presságios,
foste a escuridão mais fiel.

Que minha luz triunfa em perdoar.

3 de janeiro de 2011

Mínimos Cânticos de Aportagens



1- Da Chegada

Repentina e tão esperada âncora.
Descansa machucada proa 
de meu batismo
no rigor das essências e das escolhas.
Por teu sol
a conversão de meus abismos.

Protejo teu colo: região ultramarina
no coração doce da  flauta.
Enquanto a falta escoltava esperas
Vieste com a frota das quimeras
acordando 
arco-íris-marinhos



2- Dos Descobrimentos

Pérola instantânea:
no centro de teus olhos
refaço os meus
com nácar de proteger ostras.

Iemanjá, de imprevisto, aponta para mim
a Dona de minhas águas.
E avisto no corpo de fevereiro,
tuas mãos em concha
fazendo a oferenda
das palavras que naufraguei.



3 – Das Rotas

Eu venho de ti
E é para ti que estou.
Que sou...
                Que vou...
Alma, corpo, rosa-dos-ventos.
Alpendre dos sonhos, água, sal:
refazimentos.
A música eflúvia aninha tuas palavras
no ventre semi-aberto da beleza.

E os sete barcos cifrados em ti
se alinham aos olhos de Deus:
cantam tua chegada
no mundo que sonhava circunstâncias
melhores
pra te receber.


4. Dos Olhos de Netuno

Azuis desossados em amor
velejam-te pelos olhos de Netuno
ao rumo de duas ilhas:
expedições do corpo ou moradas de teu destino?

O filho de Cronos ordenou
ao acaso, quando ainda menino,
que desenhasse seixos na palma de tuas promessas
e contornasse com palavras o teu tempo.


5. Da Ninfa que Brincava no Cais

Sinfonia no porto de encontros.
Só a música que vem das águas
seria mesmo capaz
de florescer os sonhos
da ninfa que brincava no cais.

Nenúfares sabem.