26 de dezembro de 2011

Décima Primeira Revelação

Do Livro de Isólithus


Rosa de Jesus - Aquarela e gesso acrílico sobre papel artesanal
 O entulhar das noites me aceita.

Estreita a contínua averiguação
do nada.
Cada hora desabrigada
devolve seu recomeço.
... Gesso nas águas
destroncadas dos olhos.
Marulhos arrombam a casa
até a infância.
E essa insônia fechada
por dentro
e por fora.
Perfura.
Pensando que aprimora.

Do Livro de Isólithus

Décima revelação

 

Inundação - Teresa Martins

A chuva desprevine tua espera.
Já é noite
no corpo dos séculos
há um poema a nos cifrar;
Uma safra
... em solo ausente.
Enchente
a desproteger apresentações...
dispensa minha coragem.
Elide o desfecho
antes do mistério.
Há milênios
amplia nossa chegada.

11 de dezembro de 2011

Nona Revelação

Do Livro de Isólithus


                                                                  Pintura: Claudio Aun

Teu coração na selva

duplica a morte.
Cada manhã é um animal a mais
para inundar-te a jaula.

Os ossos vasculhados de promessa

antecipam memórias.

Desiste o infarto do lado de fora
quando a procedência conclui
vasos de veludo
para revestimentos da aurora.

A lisura do espectro diverge
mas a visão deve desintegrar imagens
jejuadas de poesia.

Feito o zinabre extenso das facas
e suas coreografias guardadas...

2 de novembro de 2011

DO LIVRO DE ISÓLITHUS

Oitava Revelação



Quis escrever andaimes mais sólidos a fim de aperfeiçoar nuvens.No entanto, meus medos encapuzados não dividiram a gravidade nem arredaram-me da nudez diante da queda.
Qualquer superfície agora é movediça.
Enquanto isso, obrigações diárias dissecam compartimentos restantes da vida, num suposto plano reencarnatório já sem pistas.
Acabei de chegar e não estou.
A cada dia tenho que esterelizar a mente, da estupidez - essa roedora-, das fraquezas praguejadas, dos falsos profetas da literatura, das promessas vigiadas de morte; E tenho que alimentar a fé com suprimentos já treinados.Para fins de evolução. Nunca sem culpa mesmo desmerecendo.
Traí todos os presságios antes que ocorressem mas não adivinhei meu pai.
Não.
Eu sequer salvei a chuva.

7 de setembro de 2011

Sétima Revelação

do livro de Isólithus

Joan Miró
 
Organizar a dor.
De joelhos redobrados
retirar dela a descontínua ameaça
dos que sem querer te esperam.

Tão provisório o risco
de tudo o que antecipa a dúvida,
que seguir a intuição das camélias
não modificará o pasto.

Quando voltarem os cavalos,
- de novelos nas patas -
tuas colinas ampliadas
saberão do equilíbrio da  força
ante o regresso.

E tua coleção de infinitos
terá a velocidade da sorte.


Para que aprendas
a entregar os frutos de teu silêncio
aos justos de imaginação.

8 de agosto de 2011

Acidente

 
A borboleta que sabotei
era de um laranja recente
com escuros impedidos.

Ela acabara de começar sua alegria
...fazendo do asfalto
a última travessia.

Olhou para o ceu
pela última vez
desprevenindo-me em
dissipável culpa.

Já não pode nomear
os restos desse dia.

Delicado cadáver de pólen...
uma tragédia disponível.

3 de agosto de 2011

Sexta Revelação

Do Livro de Isólithus

                                                                     Marcelino Castro



- Onde estiveste, Isólithus?


- Indeferindo a vaziez humana 
  e seu pequeno cemitério de ostras.

- Por que ampliaste meu consentimento
   se já posso aceitar a dúvida como a mim mesmo?

                                  - Para livrar-te da sede
                                    no fazer dormir das pérolas.

27 de abril de 2011

Despaisagem



A fuga do sol
sobre os telhados
contorce a manhã,
camufla signos desavisados.

E os girassois se despedem.

22 de abril de 2011

Quinta Revelação

do livro de Isólithus

Ernst Ludwig Kirchner



Teu sofrimento deve ser
finito na mesma proporção
em que és.

O relógio bate.

Não tema saudade, o abate,
a distância,
o aniquilamento dos peixes e
outros animais de tua infância.

Removida
tua consciência,
dor e prazer serão extintos.
E corpo e máscaras.

O Adestrador da morte
não converte lonjuras. 

30 de março de 2011

Do Livro de Isólithus

Vladimir Kush


 Quarta Revelação


Flor inicial:
o invisível arco de tua lembrança,
entre borboletas e guepardos,
vacila poemas, pérolas, silêncios...
reparte projetos
em sistemas vazios.

Acrobata da literatura,
invergas imagens
indomáveis às palavras 
que não voltam 
na mesma frequencia.

Indefeso, teu silêncio.
acorda gesso,
empresta tua distância,
engasga nos oceanos
da língua.

Teu cadáver - amenizado na luz -
fuga as paredes
na espessura móvel
do amor
e seu fútil cansaço
após o quarto.

Tu fazes a não-estação.
A sensação do teu dever
jamais cumprido.

Flor final:
não há conciliação adequada
para vidros moídos.
A multiplicação do frio,
com o tempo
quebra as janelas do inevitável
e já não ofende.

Estás no altar de todas as ausências.
O cálice vazio de tuas forças
se desprende dos milagres.

O erro está liberto
se um tigre é teu discurso.

28 de março de 2011

Do Livro de Isólithus



Terceira Revelação


Amestrar vazios é o que te digo.
Quando castigo e prece
concedem-se.
Procede a cauterização cética
do que propõe a vida.
Saída em profusão.
Teu coração já perseverava cactos.
O que não absolve o obstáculo.
Exauriste
em desníveis de promessa.
Desinteressa, agora.

Amestrar vazios é o que te digo.
Conviver.

25 de março de 2011

do Livro de Isólithus

Pintura: Ferreira Pinto

(Segunda Revelação do Exílio)

Sonhei que havia um clã 
misterioso na aldeia, Isólithus.
Com ideias de causar furúnculos 
em delicadeza.
Sobre a mesa, alguns seres
costuravam vínculos 
imperfeitos:
vi os dedos trocados nas mãos
do tempo
que racionava os séculos
por não perdoar os dias.
E havia fatias de outros sonhos
à procura da fome ideal.
Num ritual sem nome 
festejavam-se de inveja
com palavras
tão desnutridas por dentro...

 

19 de março de 2011

A Cidade e seu Rebojo

                                                                                            Pintura de Mari Carmen Souza
Hoje,
nuvens perdoadas de azul.
A cidade e seu rebojo
no estojo do vento,
cinzam.

15 de fevereiro de 2011

Vento Bemol da Quase Infância

                                                               pintura de Gersion de Castro

As tardes de sol
costumavam levar minhas pipas
para Deus,
que as devolvia sem o fio.

Tem dias que Deus não gosta
de emprestar
o vento.

12 de fevereiro de 2011

Medida Cautelar

Antes que demolissem o sol
embrulhei granizos
em palavras de lã.
E tudo estava tão frio.
Mais frio que amanhã.

7 de fevereiro de 2011

O Velório


Naquela manhã havia duas aspas em seu quarto entrecortado de vésperas de tudo aquilo que ficaria preservado, sob medida, nas roupas que o seu tempo guardou para ocasiões melhores: roupas que ele jamais usaria.
Sem perceber, havia tecido no rosto a memória intraduzível da auto-indiferença, do afago escrachado na realidade supostamente agradecida por ter sido sempre intocável.
A loucura improvisada de todas as suas almas era inutilmente arremessada contra  invontades práticas impostas por um mundo cada vez mais distante da consagração da beleza.
“Escritores são assim”, disse a mãe com mãos enfaixadas num rosário rosa. “Eles vão até a extremidade, de um lado ao outro da palavra e depois, depois acho que fica difícil voltarem”. “Por que ele fez isso?”, oscilava a mãe entre a procura e o encontro de razões para tal arrependimento de vida no corpo daquele que um dia, voraz, rasgou-lhe o ventre para respirar vez primeira e sequer chorou para nascer.

26 de janeiro de 2011

A Escolha


Sempre fui dada a alçapões. Desde as fronteiras da infância eu atravessava precipícios sobre um velho e comprido tronco de árvore. Às vezes, olhava para baixo. Era sempre uma escolha entre o riacho de pedra e o outro lado: o lado final de onde os amigos da escola gritavam: “volta.Olha para frente e volta!”. Eu sabia que toda a dimensão do que estava lá embaixo, o riacho, as pedras, os peixes, jamais me perdoariam.

10 de janeiro de 2011

Memória de um sonho I




                                               pintura de Luísa Nogueira

Rabos de rato
nas frestas das portas
Mexiam-se como se acenassem.
Paredes de madeira
pintadas de azul
e manchas escorridas
de branco-sujo.
À frente da casa o mar avançando
sobre a grama que não era verde.

Ao fundo
não havia nada.

7 de janeiro de 2011

Escorpião de Nuvens



Caça-me à noite o escorpião de nuvens.
Escolta-me até o sangue da neblina.
Ensina-me a delicadeza do golpe,
a flor coagulada entre os dedos.

Decepo a estrela decadente e bruta
lançada ao olho da minha noite
absoluta.
Constelação de vidro em forma de dor,
dissolvida a íris: membrana alucinógena da antevisão.
No coração, alçapões de gelo
labirintam o sol em despedida.

Toda felicidade é cega de ausência.

A confluência vesga dos corpos
rasga a seda dos amores
impróprios.
Caleidoscópios incidem
sobre existências não refletidas,
espelhos glaciais.

Sob vitrais do tempo,
epilepsias mitrais não alcançam
o vento bêbado das colinas.
Porque a esperança de marfim
trincou os olhos do amor: rio congelado sob os pés,
refém da mira de mil sóis.

No inverno os distanciamentos são mais agudos.

No pudor das manhãs,
a face ainda molhada da flor
denuncia soluços noturnos.

O orvalho é pretexto de toda flor,
para mentir que não chorou.

A respiração inquieta das cortinas
quebra o sigilo do som.

É preciso edificar silêncios para entender
a compilação das coisas.

Sobre a face, o esgotamento das forças desenhadas à mão:
                             eco de asfixia debatendo-se pela minha boca,
                       o amor,  esse enterrado vivo.

4 de janeiro de 2011

Acalanto para Adormecer Abismos



“...e a aurora exulta pés coagidos na direção
invisível e creio não levar mais
o conhecimento pra dentro
daquilo que mantive errado
mas absoluto.”

C. Ronald.


Madrugada:
tenho mãos e sono confusos.
Ao caminhar pela casa,
contorno a vida
de um lado a outro
com os olhos presos
por dois ganchos arrependidos.
Um, suspende o amor pela cegueira.
O outro liberta a sombra que nunca fizeste.

No contratempo dos presságios,
foste a escuridão mais fiel.

Que minha luz triunfa em perdoar.

3 de janeiro de 2011

Mínimos Cânticos de Aportagens



1- Da Chegada

Repentina e tão esperada âncora.
Descansa machucada proa 
de meu batismo
no rigor das essências e das escolhas.
Por teu sol
a conversão de meus abismos.

Protejo teu colo: região ultramarina
no coração doce da  flauta.
Enquanto a falta escoltava esperas
Vieste com a frota das quimeras
acordando 
arco-íris-marinhos



2- Dos Descobrimentos

Pérola instantânea:
no centro de teus olhos
refaço os meus
com nácar de proteger ostras.

Iemanjá, de imprevisto, aponta para mim
a Dona de minhas águas.
E avisto no corpo de fevereiro,
tuas mãos em concha
fazendo a oferenda
das palavras que naufraguei.



3 – Das Rotas

Eu venho de ti
E é para ti que estou.
Que sou...
                Que vou...
Alma, corpo, rosa-dos-ventos.
Alpendre dos sonhos, água, sal:
refazimentos.
A música eflúvia aninha tuas palavras
no ventre semi-aberto da beleza.

E os sete barcos cifrados em ti
se alinham aos olhos de Deus:
cantam tua chegada
no mundo que sonhava circunstâncias
melhores
pra te receber.


4. Dos Olhos de Netuno

Azuis desossados em amor
velejam-te pelos olhos de Netuno
ao rumo de duas ilhas:
expedições do corpo ou moradas de teu destino?

O filho de Cronos ordenou
ao acaso, quando ainda menino,
que desenhasse seixos na palma de tuas promessas
e contornasse com palavras o teu tempo.


5. Da Ninfa que Brincava no Cais

Sinfonia no porto de encontros.
Só a música que vem das águas
seria mesmo capaz
de florescer os sonhos
da ninfa que brincava no cais.

Nenúfares sabem.