16 de novembro de 2010

Tributo a meu Pai

O oceano ainda está engasgado com tua partida.
Os mares denunciam silêncios advindos do coração das conchas, tuas irmãs caçulas.

Todos os peixes, lacrimejantes ainda, te esperam para pescar com teus camarões vivos.
Tuas salinas estão desertas.

No balanço do tempo de tua vida terrena, as contas, de certo, foram feitas erradas.
Desajustaram o relógio de tua despedida: adiantaram tua morte ou adiaram a nossa?

Os juros de tua esperança eram altos demais para que pudéssemos pagar com a escassez de nossa fé ou com promessas medicinais.
Nenhum anjo aceitou negociação já que não tinhas preço.
E eis que te levaram para pescar em águas mais tranquilas.

Teus Joãos-de-barro, tuas laranjeiras, teus cães brincantes pelas manhãs, teu pé de jabuticaba (sempre por florescer), uma lavoura de sonhos inteira, regada diariamente com as águas teimosas de teu coração...tudo isso agora, floresce tua falta.

Obrigada pela semeadura do caráter em nós, pela sensibilidade, pela doçura e por todo o desapego material a nós ensinados através de teus exemplos de homem ético, honesto, corajoso, feito de poesia; não aquela poesia recostada nas páginas dos livros, mas a poesia orgânica, praticada no cotidiano dos gestos.

Tão difusa a contabilidade dessa vida, seu Pedro, que fica impossível calcular a proporção de nosso amor por ti.

Pai, obrigada pelas lições de amor e gentileza cravadas nos caminhos de teu olhar disperso, verde, profundo, esquecedouro de si mesmo, sempre apto a lembrar de seus semelhantes. 

Obrigada pela paciência que tiveste para conviver sessenta anos, dez meses e um dia, com a inferioridade humana; Logo tu, príncipe da delicadeza, rei dos desprendimentos...

Não sabemos se daremos conta de tua ausência,

pai,
        filho,
               irmão,
                     amigo
                           e companheiro...


Mas certamente já somos reféns da saudade 
e de agora em diante, cada dia sem você...
será um susto.

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