13 de novembro de 2010

O Livro de Isólithus

As Doze Liturgias do Abandono

“ Esta ilha
engrinaldada por agrestes bosques
jaz no mar
como um espinhaço de burro.”

ARQUÍLOCO

“Seco de inspiração, mas não de sentimento
pelas tristezas que o comovem tanto
para assunto de poemas, o medíocre poeta
o seu estilete molha, preparando-se...”

Arquíloco (Grécia-Jónia – c. 700 a.C.)




12

Em peixes de estimação
inclino-me tempo de escamas.
Alvoroço vértebras insustentáveis
às defesas da carne.
Não sei mais das vésperas
que guardavam o resto.
O futuro descuidou de minha fé:
espancou os anjos que eu tinha.

Isólithus: jamais terei a sorte dos peixes.



11

O pão falsificado da amizade
não purificou minha fome.



10
 
Observatório hostil.
Construí silêncios para detectar
metais
nos olhos de meus algozes.
Capto apenas as cenas
das quais já me retirei
para induzir o coma
das palavras.

Há visões que não são dignas
de  minha palavras.



9

O Anjo d'água
me guarda
com a farda de um louco.
Traz flores no ouvido,
vaga-lumes
no esquerdo das mãos. 
Meu anjo d`água
fala de peixes machucados
na rede dos homens.
Em noites sem beleza,
me reza das
iscas, me benze das fomes.

Depois
me devora.


8
 
Silêncio.
Dormir marés em espessura branca.
Nunca fuga incompleta nos pés.
Mas tanta.
Pois sempre ferro fuligem em nós.
Andagem fui.
Fumaça e pluma.
Alguma paisagem ou neblina.
Alguma escama ou espuma.
Ou nenhuma.


7

Andarilho solto
na armadilha.
Sou o lobo semi-aberto
ao meio.
Esteio.
Medula vazia.
Olho embrulhado
no vidro dos dias.
Perigo revirado
dentro.

Fora o resto.

 

6

Abrir caminhos é encerrar esfinges.
Atravessar as alas mortais
onde todo amor, castigo,
onde todo acolhimento, guilhotina.
Sugar para o exterior da retina
o ferro mentido de afagos.
Decepar de dentro para fora
o enxerto.
Não ser mais o animal
empalhado de culpa.
Esculpir-se apenas
no que não finge.

É escolha de poucos vingar os animais.



5

Dentro da casa amanhecida,
um resto de ausência no espelho.


 4

Abro os alçapões da loucura:
a janela escura de toda alma.
E eis que não sei mais lidar com a luz.
- a claridade sempre te foi burra -
Esbarro as mãos
em qualquer coisa que sobrou
na superfície:
alguns livros entre os escombros,
insetos e amores de artifício.
O cadáver mais difícil
é o de si mesmo.
                    

3

Arco-íris quebrantado de hojes.
Incolores,
as noites ameaçam de cinza o anjo.
Claustrofobia no caos.
Quem restaura a espinha
desse Deus pintado de fuga
em minhas costas?
O distanciamento progride
na medida em que branco.

 É assim que se captura o breu:
avesso de toda lembrança.


2

Isólithus reza meus dias
para dormir das gentes.
Pequenas horas me guarda.
As maiores, oferece aos que me vegetam.
Falsifica meu sono
                                      porque  até os relógios me traíram.
E só por generosidade, não me prepara
para o itinerário
que começa sempre pelas manhãs.

Até que o sol se ponha,
oferece a minha última face
na falta de outras.

O que cicatriza é acreditar
na travessia que farei
ao esplendor,
mais cedo ou mais tarde.
 
É a prova do meu sacrifício
fingir que não sou nada.
Aprender é sempre minha condição.
Aprendo, por exemplo,
a pagar as promessas
que não cometi.

Eu nunca te prometi nascer, Isólithus.



1

Renunciar ao centro
para governar recônditos.
Eis a travessia cândida
dos que não precisam
mais da superfície para compartilhar
afagos de hipocrisia.

É no subterrâneo
que as flores decidem ir embora
para compreender

que os afogados se revezam.



0

Continuo a vida.
Mas salvei uma parte da morte em casa
para os casos extremos.
Ainda inverno sonhos
nos confinados cacos do corpo.
Tudo está perdido.
Perdido como um elo.
Um flagelo, um duelo
deixado para trás.

E os canibais continuam.

                                                                                      
                                            Do Êxodo




Debandar-se
sustendo búfalos na garganta.
A quadratura da manhã
remove as moscas,
mascara os dias
em que apodreci.
Ir embora é transferir-se
de chaga.
É mudar de insetos,
sabendo-se verme:
guardião do nada.

..............................

O isolamento agrada
aos súditos do descuido.
Preserva os tigres
da imperfeição;
reitera o Deus.

Mas não emigra
um homem de si mesmo.

                                          ..............................

 Minha ternura nas pedras
Vegeta.

Cecília Meireles


O mar está feio
A sombra não protege o escombro
do que foi ternura.
Agora o escambo da loucura,
o escândalo azul nos olhos do boi:
peixe-boi
lambendo o pasto
salgado de rede,
ampliando a parede dos acasos,
moendo o ventre
no centro dos cascos:

chora.

 .....................................

E não sobrou esperança, Isólithus,
no leito do rosto,
no estreito das vigas;
fadigas farejam vestígios
de refazimento.
Pernas, poemas e músculos.
O sangue destilado na matéria,
desenha esses coágulos
inseparáveis do sonho.
Ao lado das mãos, a velha pipa
destroncada no tempo.
O vento arrebenta as cordas de
um violão que reservei  por dentro.
Há ruína nos potes
onde guardei meus arco-íris.


.........................................

Foi um inverno e tanto.
Vinhos escaldados
na caligrafia imensa
dos ossos da casa que era a alma.
Ventos apedrejados
pelas minhas costas
tão inferiores às legítimas pedras
que guardam o tempo.
As costas é que são inferiores,
não os ventos.
Gosto de imaginar as vírgulas, apenas.
Costumava contar as ondas
por minuto, lembras?
Mas elas são mais velozes
que a areia encravada
em  meus  supostos olhos.

.............................................

Os olhos são sempre cicatrizes.
Eu estou com silêncio, Isólithus.
 A dor é como a chuva
subnutrindo as artérias da terra.
Arejando o inferno.
Amortecendo as subidas dos
cegos de cada dia.
 Alguns imitariam amigos,
acaso houvesse.
Então é isso, Isólithus:
as flores no abismo são incomparáveis.
São flores de água.
Salgada.

Às vezes, é preciso remover a fé
para suportar as montanhas.

 ...........................................


Não escrevemos a respeito
das cerejas que aparecem
nas ceias de ano novo;
das vocações indecisas
escorregando nas uvas
quando eram o futuro
sabe-se lá de que vinho.


Nas tardes de feriados
com silhuetas de domingo,
todos os rios que nos banharam
não foram capazes
de nos livrar
das tentações do orgulho
pelo qual fomos tragados
em nome do Deus
que pensávamos ser.

 .......................................

Cedo ou tarde
desfizemos o pacto
da mesma maneira
com que as mãos
desfazem a mala.


Não poderia ser mais simples.
A leveza estéril preenchendo
o metal de nossas poesias
quando se visitavam.
Não poderia ser mais
que a estupidez do gesto?

.........................................

Nasceram girassóis
no canto esquerdo do quintal.
Não te conhecerão os girassóis.
Pode ser triste alinhavar as escadas
que construímos.
Pode ser.

 .........................................
Somente depois de conhecer
o mar, é que se pode entender
que a vida é feita de coice
e redemoinhos.
E que os cavalos-marinhos
abrigam sonhos
cavalgados na infância.
Uma concha verde, um relicário,
guardados antes da intolerância
desses dias de calcário.
e quase de vingança.

 ........................................

                                         Teu princípio é trair
                                         a fuga,
                                         Mas tens que subtrair os olhos
                                         para exorcizar o desprezo.

                                         Beijei os lábios do caos
                                         Aniquilei verdades com
                                         Minha fé inválida.
                                         Uma vida em falso
                                         no caminhar dos séculos.

                                                    Até quando serei o que me arremessa?

                                                ..........................................

Inova-me o pó desta estação insana.
As pragas se instalam no corpo
da casa.
E o meu corpo não se vinga.
Amarelos tão sem sol
acumulam-se no sangue.
Sereno e vidro repartidos
na salvação do vinho.
Meus sentimentos escorregam
no charco
à procura dos barcos que construí,
ainda ontem.
Para quê, Isólithus?

Amanhã, repetidas algemas.

 ..................................


REVELAÇÕES DO EXÍLIO
               (cavernas essenciais)



Quem sonhar com cavernas
 verá dormir Isólithus que
ao ranger suas correntes,
oferece música aos visitantes.

 
Plenitude é escolha de poucos.
Nunca digas aos sete ventos:
a poesia acabou
O oco dos pássaros
governa a eternidade dos cantares.

Respirar Deus é fácil
Mas prefiro a asfixia fora de hora,
as palavras indomadas nos confins 
de tudo o que não acabei de ser.
Prefiro a poesiaespera, imprevisível,
a pancada ausência,
                               a paciência das amoras,
o silêncio inconfundível
de quando Deus dorme.

                                É menos pontual.


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